segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O amor

Por: Joaquim São Pedro
O amor.
Sim, e daí.
De novo: o amor.
Tá bom, o amor.
Posso ir em frente?
Tudo bem.
Você vai me interromper?
Não!
Então fica quieto.
Quieto.
O amor.
Hummmmm.
Hum, o quê?
Você não desembucha esse amor.
Você disse que ficaria calado.
Mas, eu estou.
Me interrompeu, seu insensível.
Desculpe. Começa, vai.
Presta atenção.
Ok.
O amor.
Rsrsrsrsrsrsrsrsrsr.
Tá rindo de quê?
Rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs.
Seu nojento.
Perdão. Não rio mais.
Tudo bem.
Desculpe?
Vai me deixar declamar?
Juro.
Então fica calado e presta atenção.
Tá bom.
O amor.
Hum!
Por que tá olhando pra janela?
Nada. Só pra ver se vai chover.
Você está me tomando por idiota?
Não, meu amor.
Não me chame de meu amor.
Tá brava por quê?
Você é um egoísta, um insensível.
Mas você está me desancando...
Por causa de uma merda de poesia.
Eu não disse isso.
Mas pensou.
Além de poeta, lê pensamentos?
Idiota, boçal!
Boçal por quê?
Insensível!
Tem outro?
Outro o quê?
Adjetivo pra me xingar.
Babaca, serve?
Apelou.
Apelei, porque você é um egoísta.
Por quê?
Não me dá atenção.
Desculpe.
Hum.
Leia a sua poesia, vai.
Vai prestar atenção?
Juro.
Olha lá, heim!
Juro. Vai lá!
Lá aonde?
É modo de falar. Diz a poesia.
Ah, bom.
Diz, vai.
Vou começar.
Começa.
O amor.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
Filho da puta.
Desculpekkkkkkkkkkkk.
Nojento.
Perdãokkkkkkkkkkkkkk.
Idiota. Nunca mais falo contigo.
Por favorkkkkkkkkkkkk.
Nunca mais você vai ouvir falar de mim.
Não faça issokkkkkkkk.
Quer saber de uma coisa?
Hum!
Eu te amo, cara!
Hum!
Te amo muito, sujeito!
Hum!
Essa poesia, eu fiz pra te homenagear.
Hum!
Mas olha aqui o que eu vou fazer com ela.
Não faça, me desculpe, por favor...
Papel picado.
Pô!
Quer saber mais?
Hum!
Eu a escrevi, imprimi e deletei o original.
Por quê?
Pra que só houvesse uma versão.
Poxa!
Eu ia colocar numa moldura.
Hum!
Para te dar de presente no seu aniversário.
Hum.
Agora, toma.
Ops!
Isso, se abaixa mesmo.
 Pô!
Agora cata, cata cada pedaço.
Hum. Posso te fazer um pergunta?
Faz, idiota, nojento, podre, urubu!
Você decorou a poesia?
Huhum!
Isso quer dizer que decorou!
Sim. Decorei.
É capaz de declamar.
Sim.
Faz isso, por favor.
Nunca mais.
Por favor.
Tem uma condição.
Qual?
Você presta atenção, calado, olhando pra mim?
Juro.
Então tá.
Declama?
Ok.
Posso começar?
Pode.
O amor.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
Morra, débil mental.
Vem cákkkkkkkkkkkkk.
Pram (porta batendo).
Voltakkkkkkkkkkkkkkkk.
O amorkkkkkkkkkkkkkk.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Depois do amor, fazer desamor

Por: Joaquim São Pedro

To com vontade de viver nu?
To com desejo de te vestir.
Vamos morar com os bichos?
Melhor passearmos no zoo!
Eu adoro procurar estrelas solitárias;
Te compro um solitário;
Preciso ir embora desta casa;
Mude-se para os meus braços;
Esta dor de cabeça não passa;
Vamos levá-la ao shopping;
Você tem fogo?
Eu estou em chamas;
Me dá mais um pedaço de queijo?
Me dá mais um beijo?
Ta bom!
Te dou um bom-bom;

Por quê?

Em agradecimento;
Por quê?
Por você ser de cimento;
Sou concreto?
Ser por cebola, não rebôla;
Tu és louco?
Me dá?
O quê?
Um pedaço do seu dedo;
Eu fico mutilada;
Me dá uma perna?
Só uma, não;
A duas?
Pra você jogá-las de lado e enfiar a cabeça entre elas?
Não, pra elas me levarem ao supermercado;
Tá triste?
Tô feia;
Tá louca? Tu és linda;
Linda pras tuas negas;
Eu nego;
Jura!
E correção monetária;
Vem!
Pra onde?
Sobe em mim e mergulha na minha gruta;
Somos só nós dois?
Somos só você;
Me penetra!
Eu não quero ir a uma gruta, quero ir ao Himalaia;
Vá para o parto que o raia;
Posso te morder o mamilo?
Poderia se não pedisse;
Posso morrer?
Poderia se realmente quisesse;
Tô gorda?
Como a Olívia;
Meu Popey;
Minha mamey;
Política?
Não!
Economia?
Nem pensar!
Sexo?
Talvez!
O que você quer saber? eu te ensino;
Tudo;
Tudo não posso; ensino um pouco;
Aí, não tem graça;
Então, é uma desgraça;
Desgraçada é a fome;
Fome desgraçada!
É pior do que pinga com limão;
Pinga com limão é bão.

Que rima idiota;

De bota;

Bolas!
Suco de carambolas;
Vamos ao cinema?
Outra vez?
Vamos fazer amor?
Vamos!
Porque não disse outra vez?
Sexo não repete;
E Grappete?
Dietético;
Aidético;
Tempo;
Para quê?
Vamos começar de novo!
Política?
To fora;
Economia?
To longe;
Arte?
Destarte!
Picasso?
Como é que você descobriu?
Sobre Picasso?
Sobre a minha pica de aço;
A sua mãe;
Ela te contou?
É santa!
Senta?
Na privada?
Come!
Sardinha enlatada?
Mija!
Na calçada?
Gosta dos meus óculos?
Você é o minotauro?
Tira o lençol!
Ficar nua?
Nua e crua;
Queimadinha!

De Ipanema?
Vamos ao cinema?
Outra vez?
Jantar!
Vou te comer;
Outra vez?
Melhor jantar?
Se não, te janto!
Guloso!
Ansioso!
Por quê?
Pra ficar viúvo!
Mas você é solteiro!
Casado com a solidão!
Queres que eu morra?
Que corra!
Na praia?
Na floresta;
Nada mais me resta;
Viva!
Uiva!
Viva a vida!
Viva, vida!
Vida viva!
Vida, viva!
Tédio!
Tejo!
Rio!
De Janeiro?
Pomba!
Pombas!
Rios?
De ti!
De dejetos?
De objetos;

Ria!
Rien!
Nada?
Nado;
Saco!
De gato?
De plástico;
Vamos começar de novo?
Do povo!
Política?
Sem chance!
Economia?
Ta no cofrinho;
Esporte?
Cansa;
Câncer?
Gay!
Preconceito;
Me ajeito;
Dê!
O quê?
Um sapato velho;
Pra quem?
Um homem velho;
Um gesto velho;
Você fala demais;
Não falo mais;
Calada;
Calados?
Colados.