Capítulo
1
A
brisa suave anunciou a chegada da
primavera carioca, mas Fernando Afonso não percebeu. Caminhando pelo calçadão da
Avenida Atlântica, em Copacabana, bairro mais charmoso, daquela que é uma das
mais famosas cidades do mundo, o Rio de Janeiro, ele sequer se deu ao trabalho
de olhar para trás quando a freada brusca de um carro não evitou o atropelamento
de uma criança. Cena para a qual estava atenta uma mulher gorda e grisalha,
vestindo bata e calça exageradamente coloridas. Ela deu um grito de horror e
exclamou:
– Ah, santinha!
Céu muito azul, movimentação de
banhistas na areia da praia, Fernando seguiu seu caminho, pois de tudo o que ele
saiu de casa para ver, ouvir ou sentir naquele dia, nada o incomodou mais que o
sol escaldante que incendiava sua cabeça, onde se sustentava, pouco acima da
testa, um minguado tufo de fios de cabelos.
Ele revelou, contudo, que andava sem
lenço no bolso porque, ao espirrar, usou indicador e polegar da mão direita para
expulsar de dentro do nariz o resto do catarro que obstruía suas narinas. A um
estalo de dedos jogou tudo no chão. Por fim, limpou a mão na manga da camisa e
seguiu adiante.
Um aposentado que estava sentado no
banco do calçadão, de costas para o mar, teve vontade de escrever uma crônica.
Lembrou-se, no entanto, que era hora de voltar para casa e tomar o remédio.
A estudante Jéssica Freitas, que
passeava de mãos dadas com o namorado, também presenciou a cena e sentiu ânsia
de vômito. Morena, com umbigo ao vento, ela abraçou os cadernos com uma das mãos
e segurou a do namorado com a outra. Os dois mataram aula para perder a
virgindade no apartamento em que o jovem morava com os pais nas imediações.
Com corpo de mulher, Jéssica
descobriria logo que, além da virgindade, perdera uma prova na escola e que, por
insuficiência de pontos, ficara em recuperação, deixando seus pais furiosos.
Como o seu inferno astral estava apenas começando, ela soube dois meses depois
que daria à luz um lindo e saudável menino, a quem batizaria coincidentemente
com o nome de Fernando.
Além da gravidez, a jovem seria
surpreendida tempos depois com a notícia de que o pai do seu filho viajaria para
Toronto, no Canadá, a fim de estudar e começar a vida de adulto. Sem previsão de
volta à terra natal.
O mal-estar da namoradinha por causa
da cena do homem que se livrou do catarro às suas vistas só aliviou depois que
ela chegou à Avenida Nossa Senhora de Copacabana e embarcou numa condução com
destino ao subúrbio de Penha. Acomodada no banco atrás do motorista, a estudante
acenou para o rapaz que a olhava desde o outro lado da calçada. Ao gesto dele de
apenas levantar a mão e acenar ostentando um sorriso amarelo,
ela concluiu que algo nele havia mudado desde que os dois deixaram o ninho de
amor.
A adolescente chegou em casa já
anoitecendo. Cansada, só pensava em desfazer o nó que apertou sua garganta
durante toda a viagem. Por isso, tomou banho e correu para a cama. A mãe
estranhou tanta discrição na atitude da filha e foi vê-la. Chegando no quarto
ela a encarou, para perguntar o que se passou. A conversa ganhou tom choroso e a
verdade logo surgiu.
Depois, as duas se abraçaram e
choraram. Uma fragilizada Jéssica nem percebeu, porém, que uma matreira Arlete
entendeu logo a gravidade dos fatos e pensou que pudesse assumir o controle da
situação.
– Qual a profissão do pai do rapaz,
filha?
– Quando a gente passeava pela praia,
ele me disse que o pai dele era dono de um hotel grandão que tem lá em
Copacabana. Acho que ele apontou para o mais alto de todos – a menina respondeu.
A mãe se calou, levou a mão ao queixo
e congelou o olhar em algum ponto da parede do quarto. Depois chegou à janela,
de onde enxergou a lua cheia e o céu estrelado. Ainda pensativa, ela deu mais um
giro no olhar e alcançou a Igreja da Penha, sempre vistosa e muito iluminada.
Olhos fixos num dos cartões postais da cidade, orou em voz baixa pela harmonia
de sua família e pelo futuro da filha.
A estudante se distraíu ouvindo
música sem imaginar quão boas perspectivas sua mãe vislumbrava naquela breve
oração. Menos mal, porque o pai dela,
Geraldo Freitas Júnior, era um homem
compreensivo e incapaz de qualquer gesto mais brusco contra mulher e filha.
Ele receberia mais tarde com
apreensão, porém, a notícia de que a sua eterna menina agora era uma mulher e
com a mesma passividade reagiria, meses depois, ao saber que seria avô.
– Vista o pijama e venha jantar,
filha.
– Perdi a fome.
– Por quê?
– É que vi um homem lá em Copacabana
cuspindo no chão e até agora estou com ânsia de vômito. Que nojento! Um cara
muito esquisito. Naquele tremendo sol, ele vestia uma roupa preta e parecia um
corretor de funerária.
Arlete riu da expressão usada pela
filha para descrever Fernando Afonso.
– Quê? Onde você arrumou isso de
corretor de funerária?
– Agora!
Arlete sorriu e abraçou a filha.
Depois brincou:
– Acho que você deveria ser
comediante.
– Eu? Não senhora, eu quero ser
contadora. Vou trabalhar num escritório de contabilidade. Adoro quando as contas
fecham, o ativo e o passivo batem, sem deixar diferença. É uma ciência exata. A
senhora não imagina o que se pode fazer de errado numa contabilidade.
– Como assim? – quis saber uma
curiosa mãe.
– O meu professor disse que grandes
empresas maquiam seus balanços para sonegar impostos e ter mais lucros. Os caras
ficam milionários e os empregados continuam pobres, mãe.
– Minha filha vai ser contadora e
justiceira!
As duas riram. Arlete sentia um amor
doentio pela filha. A jovem era o fruto de um caso rápido que Arlete teve,
coincidentemente, com Fernando Afonso antes de se casar com Freitas. Só uma
pessoa conhecia sua história: o doutor Martorélio Pereira. Fernando Afonso
sequer imaginava que era pai e depois que se afastou, nunca mais viu ou teve
notícias de Arlete.
A mãe zelosa ainda deu um último
aviso à filha mimada, antes de lhe dar boa noite.
– Hoje você pode dormir sem fazer o
dever, porque amanhã é sábado.
Jéssica pulou da cama e abraçou a
mãe:
– Ô, mãezinha linda...
– Por falar em sábado, vou cedo na
cidade e quero que você vá comigo.
Jéssica cerrou o semblante:
– Vou? Mas eu queria dormir...
– Vai comigo. Vamos almoçar na
Espaguetelândia?
Jéssica reabriu o sorriso e concordou
com a cabeça. A moça adorava comer macarrão na Espaguetelândia, uma das mais
tradicionais casas de massas do Rio.
– Mãe, como é mesmo aquele samba
engraçado que a senhora canta sobre a Espaguetelândia?
Arlete adorava roda de samba, mas a
menina a desconcertava todas as vezes que tocava no assunto com seu jeito
moleque. Mas Arlete se rendeu aos encantos e à descontração da filha:
– É o samba “Ladrão de Galinha”, de
Nei Lopes. Eu canto pra você. Só um pedacinho: “Foi num salão, ali no baixo Cinelândia, Perto da
espaguetelândia, na Francisco Serrador, Que eu descobri que não tem bem que
sempre dure, conhecendo a manicure Ana Luzia Eleonor, com seu jeitinho
encantador” (...)”. Breque.
Risos, abraços e tapinha no bumbum.
– Já pra cama, menina
travessa!
Depois de puxar o colcha para cobrir
a filha, Arlete chamou Deus às falas e lhe fez uma advertência: “Nem me imagino
viver sem minha filhinha. Nem se atreva, Senhor, a tirá-la de mim. Nunca o
perdoaria e viraria esse céu aí de cabeça para baixo”.
Fernando Afonso alcançou um estágio
de sua existência em que predominavam nele mau humor, tristeza e angústia. Por
dentro uma sensação de vazio e por fora absoluta incapacidade de ver satisfação
em qualquer coisa, espremiam-lhe o coração a ponto de quase sair pela boca.
Prazer, palavra que, havia muito, perdera o sentido.
Em suas andanças desprezava as
paisagens e os pontos turísticos da cidade do Rio. As pessoas com as quais
cruzava nas ruas tinham a mesma cara. Não havia nele mais equilíbrio emocional e
muito menos disposição para sustentar um relacionamento afetivo. Por isso, ele
rompeu o namoro com Mirtez Luizam, dois dias depois do passeio por Copacabana. A
última das três amantes que teve na vida. Ele entendeu a atitude como acertada.
O projeto de futuro para o qual ele
foi buscar inspiração na orla do Rio, na tarde de estreia da primavera, excluía,
portanto, seres vivos e racionais. Moribundos, talvez. Mortos, com certeza. Por
tudo isso, Fernando Afonso Alves, quarenta e poucos anos, profissão contador,
estado civil solitário permanente, amadurecia a vontade de se isolar de tudo e
de todos, em algum lugar pra lá do inferno.
No balanço geral, Mirtez viveu
infeliz ao lado de Fernando Afonso todo o tempo. Os dois fracassaram na
tentativa de viabilizar um projeto de vida em comum. Em alguns bons momentos da
relação, ela sentiu vontade de se casar, mas a instabilidade emocional dele
obrigou-a a recuar outras tantas. Por isso, o namoro estagnou antes de se tornar
uma falida instituição.
Mirtez temia ser abandonada no altar,
ou, o que é pior, que um dia acordasse, olhasse para o lado esquerdo da cama e
encontrasse apenas uma cueca suja e um bilhete mais sujo, justificando o
injustificável.
Reconheceria depois de tudo,
refletindo a vida e a atitude do ex-namorado, que sua insegurança também
contribuiu para o fim da relação. Enquanto conviveram, eles jogaram com a
autodestruição, até o dia em que o próprio Fernando, ainda que num gesto egoísta
e desesperado, arrebentou a corrente da insensatez que os atava e salvou os dois
do suicídio.
Depois do périplo por Copacabana,
Fernando admitiu a si mesmo que precisava de um médico. Não um que lhe
receitasse alívio para as dores na nuca, mas aquele que lhe desse algo que o
ajudasse a se desintegrar de uma vez. Contudo, ele demoraria ainda dois meses
para procurar ajuda. Mas um dia marcou consulta com o doutor Martorélio Pereira,
que o recebeu no fim do expediente.
Eram grandes amigos. Embora houvesse
uma diferença de vinte anos entre os dois, Martorélio fez por muito tempo papel
de confidente, ou de um irmão mais velho para Fernando Afonso.
Tudo na vida do médico aconteceu mais
tarde. Solteirão convicto, ele se formou pra lá dos 30 anos e se casou com
Clarilda perto dos 35. O casal morou por uma temporada nos Estados Unidos e de
lá retornou cinco anos e cem mil dólares depois. Não tiveram filhos, mas isso
ficou longe de representar uma frustração para ambos.
Martorélio especializou-se em clínica
geral e montou consultório no vigésimo andar de um prédio comercial, na Praia de
Botafogo, de onde avistava a enseada, o bairro da Urca e o Pão de Açúcar.
Clarilda fez concurso público e virou burocrata do Ministério da Educação, onde
trabalhava numa sala cercada de paredes por todos os lados.
O médico tinha dois segredos que o
incomodavam e lhe tiravam o sono, a fome e, às vezes, a vontade de viver. O
primeiro era o fato de saber da filha de Fernando Afonso com Arlete e nunca ter
contado a verdade ao amigo. O outro, um episódio vivido por ele, quase trinta
anos atrás, numa viagem de férias a uma cidade, no interior da Paraíba, chamada
Caruguraci.
Tudo aconteceu quando ele, depois de
se hospedar num hotel da cidade, saiu para se divertir com dois amigos também
estudantes, Jones Luis e Miguel Filho, e se desgarrou. Naquela noite, cada um
viveu um inesquecível romance típico de férias de verão. À exceção de Martorélio
que viveu algo cercado de mistério por todos os lados.
Um enigma cercado de ingredientes de
noite dos horrores. Depois de muito beber e sumir, ele acordou dentro do carro,
estacionado debaixo de uma árvore, na periferia da cidade, todo sujo de sangue e
com a camisa rasgada. Martorélio nunca se lembrou de um segundo sequer do que
lhe aconteceu a partir de determinado momento da noite em que relaxou mais do
que podia e bebeu mais do que devia.
A eterna dúvida deixou-o para sempre
em parafuso. A partir daquela data, ele passou a considerar todas as hipóteses
para a sua desventura, até a de ter matado alguém. Por isso foi condenado a
viver em dúvida. “O que me aconteceu naquela noite, meu Deus”? É a pergunta que
ele se fazia pelo menos três vezes ao dia.
Fernando Afonso chegou ao consultório
de Martorélio na hora marcada e foi recebido de braços abertos. Mas deixou claro
que estava pra pouca conversa. Angustiado e impaciente, disse ao que veio:
– Preciso de você.
O médico estranhou a falta de
disposição do amigo para, ao menos, cumprimentá-lo e recolheu os braços:
– O que há, meu caro, nem me
cumprimenta direito?
O paciente deu de ombros:
– Você promete que me ajuda?
– Prometer o quê, amigo?
Martorélio franziu a testa, fechou o
semblante e levou as mãos aos bolsos. Estava apreensivo e constrangido. Ele só
encontrou conforto para os olhos quando mirou a janela e enxergou o Pão de
Açúcar, do outro lado da enseada de Botafogo, meio encoberto pelas nuvens, num
frio anoitecer.
Nesse clima o médico se preparou para
ouvir rosário de problemas de perder fome, sono e fé. Por isso, ele se virou
para encarar Fernando e começar a entender a situação.
– Tenha calma, Fernando! Tudo vai se
resolve quando vocês abrir o coração.
As palavras que eram uma tentativa de
confortar, desconfortaram. Fernando Afonso ficou agressivo.
– Maldita medicina, maldita amizade!
Numa atitude inesperada, o paciente
avançou sobre o médico e o segurou pelo jaleco, com as duas mãos, na altura do
peito. Agarrou com tanta firmeza que conseguiu empurrá-lo até a parede.
Martorélio temeu pelo pior. Que o
outro puxasse uma faca ou algo assim e provocasse uma tragédia. Logo ele
concluiu que se reagisse no mesmo sentido as consequências seriam uma luta
corporal de contornos imprevisíveis. Precisava, portanto, controlar a situação,
usando de muita cautela. Assim, insistiu no diálogo, procurando palavras que de
conforto. Antes de tudo, era preciso convencer o agressor a largá-lo:
– Calma, rapaz. O que você está
querendo fazer?. Solte-me, vamos conversar. Você quer ajudar ou quer brigar?
Os argumentos de Martorélio surtiram
efeito e Fernando o soltou:
– Você é meu parceiro? – quis saber
um visivelmente angustiado paciente:
– Sou seu amigo, mas to ficando
preocupado. Se abre, homem! O que está acontecendo?
A pergunta se seguiu ao gesto de
tentar arrumar o jaleco no corpo para depois alisá-lo com as mãos. Recomposto,
Martorélio respirou fundo e secou o suor da testa com um lenço. Fernando
encarou-o e falou da sua tenebrosa intenção.
– Quero que você corte a minha língua
fora.
O pedido assustou mais um já muito
assustado clínico. Boquiaberto, ele congelou a expressão e ficou mudo. Era
difícil acreditar no que acabara de ouvir. Olhou novamente a janela e
reencontrou o Pão de Açúcar livre das nuvens. Passava das 18 horas. O tempo
permanecia frio e era intenso o congestionamento de veículos na Praia de
Botafogo, nos dois sentidos.
Depois de assimilar um pedido que
teve o efeito de um soco no estômago, Martorélio apelou ao bom senso. Queria
encontrar na razão a resposta para convencer o amigo a desistir do seu desejo.
– Tenha consciência. Isso não está
certo. É uma bobagem. Não atenderia o seu pedido em hipótese alguma. A não ser
que você tivesse um câncer na língua, que não é o caso.
Fernando estava obcecado:
– Ninguém precisa saber que você me
fez um grande favor. – disse.
Aquela conversa virou um jogo que
tinha de ser jogado cautelosamente:
– É loucura, meu caro. Vejamos como
poderei te ajudar melhor.
Fernando Afonso irritou-se novamente
e elevou o tom da voz:
– Tenho direito de fazer do meu corpo
o que quiser. Se tiver vontade de pular numa perna só, quem me impedirá? A
Justiça? A Ciência? Deus? Tenho direito à solidão, tenho direito de permanecer
calado pelo resto de minha vida. E é o que eu mais desejo.
Aquele desabafo deixou mais claro o
que Fernando queria. O médico emudeceu mais uma vez e caminhou até a janela para
fechá-la, prevendo que choveria. Depois ele voltou ao assunto:
– Ninguém está contestando o seu
direito de decidir como quer viver. Mas o que você quer fazer com o seu corpo é
antiético e amoral. Você tem consciência das consequências?
Fernando o encarou. Martorélio
prosseguiu:
– Você está num momento de fraqueza.
Inseguro, angustiado, ansioso e preocupado. Mas isso passa. Mas se você cortar
sua língua fora, as consequências serão para sempre.
Fernando Afonso estava irredutível:
– Já pensei em tudo e digo que estou
pronto para ficar calado pelo resto da vida. Pode cortar sem anestesia não tenho
medo de dor.
Os olhos de Martorélio encheram de
lágrimas, pois aquele que estava pedido para morrer à sua frente era alguém que
gozava de sua estima e consideração. Por um instante ele relacionou a angústia
do outro àquela que carregava havia anos dentro do peito e que atendia por
Caruguraci.
Fernando caminhou de um lado para o
outro do consultório e parou na frente da foto de uma peça publicitária onde a
modelo vendia saúde e remédio para acne. O tom da voz agressivo deu lugar a um
desabafo. Finalmente, ele mudou o tom e pediu ajuda para aliviar seu suplício.
– Não suporto mais ouvir vozes. Me
sinto mal com pessoas à minha volta. Queria que esta fosse a minha última
conversa. Perdi a vontade de ir àquele escritório, de jogar bola, de ver
televisão, de ir ao cinema. Não tenho ninguém nesta vida, nem uma profissão
decente. Você é médico. Eu sou o quê? Escriturário. Isso é profissão? Não vou
ganhar nada sendo escriturário. Você pode ganhar o Prêmio Nobel da Medicina.
Martorélio o
interrompeu:
– Por favor, deixe de ser tão
exigente. Eu não quero prêmio pelo meu trabalho. Isso é bobagem. Você está em
crise. É passageiro. É só fazer um tratamento.
Fernando quis ser irônico:
– E como é que se trata? Dizendo ao
sujeito: saia desta, olhe o mundo lá fora, vá à praia, abra uma cerveja, leia um
livro e se sinta vivo. Veja o sol, a lua, as estrelas, o mar e vá ao cinema.
Vista uma roupa bonita e namore muito.
Os argumentos do médico tinham
direção:
– O que mais é a vida, meu irmão? Tem
um filósofo alemão chamado Feuerbach
que escreveu: “o homem existe para amar,
para conhecer e para querer”. Faça com ele as suas reflexões – disse Martorélio.
Fernando deu de ombros para a
filosofia e voltou a se exaltar:
– Estou afundando na areia movediça e
você me diz para sair sozinho dessa.
Martorélio engasgou de pena do amigo.
Depois de olhar a chuva da janela,
Fernando se virou e ficou de frente para o médico. Depois de encará-lo disse que
se sentia agredido até quando dialogava consigo, lamentando o rumo que sua vida
tomou.
– Será que houve um tempo meu?
Martorélio tentava contrariá-lo como
uma forma de ajudá-lo:
– O que é isso, Fernando? O nosso
tempo é agora. Se você está infeliz, é tempo de encontrar a felicidade e parar
de olhar pelo retrovisor. Longe com isso de achar que o seu tempo passou; que
você está velho para viver, ser feliz, ter alguém.
O debate ganhou tom dramático:
– Tudo me soa vago e sem sentido.
Meus sonhos não se realizaram; se é que algum dia eu sonhei; não tenho ideais.
Nada do que fiz é útil para evolução da espécie humana. Minha vida é um eterno
hesitar.
Martorélio mais uma vez reagiu à
obsessão de Fernando por um legado:
– Nem todos vêm ao mundo com a missão
de contribuir para a evolução da espécie, meu caro. A maioria vem apenas para
viver, procriar, e isso já é uma dádiva.
Em seguida, o médico abriu uma gaveta
e achou o cortador de unhas. A chuva apertou. De sua mesa ele olhou a janela e
descobriu uma brecha nas nuvens por onde avistou o Pão de Açúcar iluminado.
Estava decidido a dar uma última cartada, convidando Fernando Afonso para uma
boa noitada, uma cerveja gelada e uma conversa fiada em algum bar ali perto.
– Vamos nos divertir um pouco.
A proposta fracassou. A decisão de
morrer por partes estava tomada, sem direito a recuo ou intervalos para se
divertir.
– Você corta a minha língua ou não?
Martorélio sentiu que seu amigo
estava intransigente e decidiu ser médico, só isso:
– Meu caro, é mais prudente te
receitar um antidepressivo.
Fernando calou. O médico abriu a
gaveta e puxou um talão de receituário.
Aquela atitude determinou o fim da
consulta, já que Fernando partiu sem se despedir e levar a receita. Saiu
apressado e no corredor que dá acesso ao elevador cruzou com Arlete e Jéssica,
sua ex-namorada e sua ignorada filha. Alguém que, naquele momento de absoluta
angústia, talvez pudesse representar para ele uma razão para deixar de lado essa
coisa de se mutilar e assim resgatar a vontade de viver.
Mãe e filha tinham consulta com o
doutor Martorélio, o médico da família, confidente de Arlete e padrinho de
Jéssica. Ao cruzar com um Fernando Afonso afoito e apressado, a moça o
reconheceu como o homem que cuspiu no calçadão da Praia de Copacabana dois meses
atrás.
Arlete falava com o marido pelo
celular e nem o notou. Se o tivesse visto, na certa se sentiria mal. Afinal,
depois de duas ou três saídas, eles nunca mais se viram ou se falaram:
– Mãe, viu o homem que passou por nós
apressado e desajeitado?
Arlete já havia se livrado do celular
e entrou em sintonia com a filha:
– Não, quem é?
– É o cara nojento que cuspiu no chão
em Copacabana e que me deixou com vontade de vomitar vários dias.
– Cruzes, minha filha. E ele saiu de
onde?!
– Veio do fundo do corredor.
– Será que é cliente do Martorélio?
– Quem sabe?
– Médico também tem as suas missões
espinhosas. Ainda bem que você será contadora.
Arlete estava feliz e espirituosa. Na
conversa que acabara de ter com o marido ela recebeu a notícia de que ele
conseguiu um empréstimo para reformar o apartamento.
O namoro de Arlete e Fernando
fracassou, mas determinou a aproximação dela com Martorélio. Uma amizade de
quase duas décadas, mas que virou segredo. Para Fernando, a passagem dela por
sua vida foi um desses casos para relevar.
As diferenças entre eles logo ficaram
gritantes e, pruden-temente, cada um tomou o seu caminho. Só que no caminho de
Arlete havia uma gravidez. Quando entendeu sua situação, ela procurou
Martorélio. Pretendia abortar, porque havia reatado um velho namoro e o rapaz
queria se casar. Como médico e cristão, Martorélio a dissuadiu, mas a aconselhou
a “engravidar” do namorado.
“Grávida” de Freitas Júnior, Arlete
poderia forçá-lo a apressar a papelada do casamento, de modo que a criança
nascesse de “sete meses”, numa conta mentirosa, mas num lar harmonioso. O
casamento remediou sua vida. Martorélio pesou os prós e contras da solução
achada por Arlete e concordou em guardar segredo. E assim os anos se
passaram.
Mãe e filha entraram no consultório e
encontraram Martorélio ausente, longe, absorto em seus pensamentos. Ele buscava
em Caruguraci respostas para seu drama pessoal. As duas olharam-no intrigadas e
se entreolharam com vontade de rir:
– Oi, Martorélio, algum problema?
Ao ouvir a voz de Arlete, ele
retornou imediatamente de Caruguraci e aterrissou em Botafogo:
– Não. Tudo bem... – disse sem graça.
Logo se recompôs, abraçou e beijou
Arlete no rosto e deu um longo abraço em Jéssica. A brincadeira era inevitável:
– Como vai, miss Brasil?
Arlete sacou e atirou a queima-roupa:
– Grávida, meu compadre!
O médico arregalou os olhos. Já havia
experimentado emoções demais para um dia. Só podia ser: “o irônico destino
resolveu caçoar de mim”. Ele examinara o pai de Jéssica que pretendia se matar e
depois examinaria a filha dele que daria à luz uma nova vida.
O padrinho evitou perguntar pelo pai
da criança. Arlete também não entrou em detalhes sobre o estado da filha. A
consulta não durou mais que meia hora entre conversas e receitas. Quando as duas
se foram, ele chegou na janela e procurou o Pão de Açúcar. Lá estava: iluminado
e imponente no seu papel de cartão postal.
A chuva havia passado e a noite
prometia ser tipicamente carioca – estrelada e linda –, embora a temperatura
ainda se mantivesse baixa. Martorélio fixou o olhar no Pão de Açúcar e chamou
Deus às falas:
– Me dê conforto, meu Senhor. Estou
traindo o meu melhor amigo. Sou um monstro que vai privá-lo, eternamente, do seu
direito de conhecer a filha e o neto – disse sem evitar uma lágrima.
Contudo, encerrou o expediente.
Fechou portas e janelas, apagou a luz e saiu para beber. Naquela noite ele
chegou em casa bem tarde, com muitos graus etílicos acima do tolerável. Álcool,
inimigo da angústia.
Clarilda o poupou. Entendeu que o
marido estava triste. Preparou para ele um banho e o deixou sozinho. Debaixo do
chuveiro, Martorélio chorou como um menino abandonado. Tantas emoções só
serviram para agravar a sua tormenta chamada Caruguraci.
Capítulo
2
Mirtez, a
ex-namorada de Fernando, e Clarilda, mulher de Martorélio, se conheceram numa
festa e passaram a cultivar uma sincera amizade, recheada de bombons, vinho e
confidências. Eventualmente trocavam presentes, flores, riam e choravam.
Numa tarde de folga e céu azul, as
duas tiraram para conversar sobre a vida. Mirtez antecipou pelo telefone a uma
curiosíssima Clarilda que tinha novidades para contar. Quando as duas se
encontraram, ela não conteve a ansiedade:
– É que estou correspondendo aos
galanteios de um colega da repartição.
Aos 40 anos, Mirtez ponderava algumas
limitações que a idade lhe impunha como, por exemplo, engravidar.
– Será que estou velha para namorar,
passear de mãos dadas, sorvete, pizza, cinema, tirar sarro na escada da entrada
de serviço? Clarilda tentou confortar e estimular a amiga:
– Nem pense nisso. Você é mulher pra
homem muito fino levar para a cama, tratar como rainha, dar e receber muito
carinho e prazer.
Mirtez sorriu, deu um gole no vinho e
revelou que seu novo afair
era um gaúcho quarentão, mas de
aparência jovial e com algumas características que ela desconhecia no sexo
oposto, como carinhoso, atencioso, cuidadoso e com disposição para dançar.
Abandonado pela mulher, ele criava
sozinho um casal de filhos. Chamava-se Tarso Lukáz. O cabelo fino e curto
repartido ao meio e o modo sóbrio de se vestir, davam-lhe aparência de bom moço.
Quando ele a convidou para jantar,
tinha dúvida se estava viúvo ou abandonado. De uma ou de outra forma, havia nele
um dilema: reconstruir a vida ao lado de alguém ou se deixar enlouquecer de
saudade da mulher que fugiu, levando sua alegria e deixando seu coração partido.
Mirtez, contudo, apareceu e ele
enxergou uma oportunidade de dizer a si mesmo que a vida continua. Os dois
começaram a sair e, numa noite divertida, num restaurante dançante, o casal
jantou e falou mal dos colegas da repartição.
À medida que a conversa evoluiu,
ambos descobriram um rosário de afinidades, tanto no aspecto profissional quanto
pessoal. Já a atração sexual que um sentiu pelo outro ficou reprimida na timidez
de ambos.
Ele confessou que gostaria de viajar
mais, conhecer outros povos, culturas e comidas típicas e ela se emocionou. No
momento seguinte, quando Tarso prometeu, cheio de sedução na voz e no olhar,
levá-la num cruzeiro a bordo do Queen
Elisabeth, pela Amazônia Azul, a moça suspirou e imaginou como seria
ser possuída em alto mar pelo garanhão dos pampas. Pediu que parasse.
Ele se preocupou:
– Eu disse algo que te magoou?
Ela teve vontade de dizer que se
molhara toda dentro da calcinha, mas recorreu à prudência da emoção barata.
– É demais para o coração de uma
mulher solitária – disse confessando seu ponto fraco.
Dissimulou, virando o rosto na
direção da janela do restaurante para observar a paisagem e concluir que cairia
um temporal em pouco tempo.
– Não sei se tenho coragem de
enfrentar aquela imensidão de céu e mar – disse ela, manhosa e sensual.
Os dois dançaram após o jantar.
Mirtez sentiu-se no paraíso. Tirou um segundo para lamentar os anos
desperdiçados ao lado do ex-namorado, Fernando Afonso, um sujeito sem habilidade
ou amabilidade.
Depois de dois copos de vinho e de
tanto rodar no salão, Mirtez fechou os olhos e esperou ter um beijo roubado pelo
companheiro de infortúnio. Ele teve vontade de enfiar a mão por debaixo da blusa
dela e apertar-lhe os peitos até ela gemer de prazer e gritar de dor.
O sarro disfarçado no meio do salão
trouxe descompasso ao coração da moça e despertou no alazão do Sul o desejo de
fazer sexo oral nela, ali, na frente de todo mundo. Desejos velados e contidos
que exigiram dissimulação e renúncia de ambas as partes.
“Não é mulher para essas coisas. Tudo
ao seu tempo, namoro, noivado e noite de núpcias.”
Mirtez, porém, estava pronta para ser
possuída. Naquela noite de preferência. “Podia ao menos sussurrar em meu ouvido
que sou sua putinha e depois me apalpar as nádegas.”
Tarso equilibrou-se por muito tempo
num casamento recheado de equívocos e sustentado pela enorme atração física que
sentia pela mulher e pelo nascimento do casal de filhos. Um dia os dois saíram
casados do Rio Grande do Sul e foram morar no Rio de Janeiro.
Luciana Borges foi a primeira mulher
de Tarso. Sobre ela, seria impossível fazer a mesma afirmação, já que a
intensidade que impôs à vida, desde mocinha, dava-lhe alternativas de
experimentar todos os perigos que a excitavam.
Conheceram-se ainda adolescentes. Ele
sonhou ser pai e viver feliz para sempre, dedicado ao trabalho e à família. A
mulher tinha outras intenções: uma casa para olhar, mas com um quintal
cimentado, para não ter trabalho de capinar ou varrer; muito mantimento na
dispensa, aparelhos domésticos necessários e desnecessários, tudo ao exagero
para poupá-la dos afazeres.
Sobrava em Luciana indisposição para
descascar batata, arear panela ou passar roupas. A gaúcha conhecia o Rio de
Janeiro pela TV e de reportagens sobre futebol e carnaval. Mas desde sempre se
identificou com a cidade e os dois decidiram se mudar.
Quando chegasse a vida nova, uma das
primeiras providências dela seria trocar as roupas pesadas por tops e tomara que
caia, muito mais apropriados ao clima tropical carioca e ao seu estilo livre e
desinibida de ser. Sutiã, nunca mais. Calcinhas, eventualmente.
Acrescentaria ao guarda-roupa
minissaias, sapatos baixos e abertos, e sandálias. Exigiria uma mesada para
gastar com bobagens para a casa e caprichos pessoais. Coisas de mulher. Fazer
sexo e ir à praia no meio de semana, com ou sem Tarso, tornar-se-ia rotina.
Luciana detestava o apelido que o
marido lhe arranjou: “Lulu”. Mesmo contrariada com a alcunha, reunia disposição
para colocar a Cidade Maravilhosa aos seus pés. Para tanto, esbanjava beleza.
Loura, cabelos muito lisos e escorridos, nariz fino, pele alva, chamava a
atenção, encantava e excitava a quem via ou ouvia falar dela.
Quando chegou ao Rio, o casal morou
de favor na casa de um tio de Tarso. O homem, no entanto, em pouco tempo deixou
claro que havia um preço a pagar por lhe tirarem a privacidade. Que o dissesse
Luciana, que logo se deu conta de que a casa vivia desarrumada e que havia muito
pouco asseio nos hábitos do parente.
O dono da casa não escovava dentes,
saia do banheiro sem lavar as mãos e se sentava à mesa sem camisa. T o cabelo
sempre em desalinho, barba por fazer, e exibia um corpo peludo e cheio de
pelancas caídas sobre o short.
O aposentado Carlos Fernando Vieira
vivia numa casa de vila no bairro de São Cristovão, na Zona Norte da cidade.
Acordava cedo, tomava café, se arrumava e apanhava uma condução até a Praia de
Copacabana. Na beira-mar, ele garimpava moedas, anéis, alianças, cordões e
pulseiras que Iemanjá devolvia. Retornava para casa antes do meio-dia, almoçava,
dormia e via televisão.
Carlos Fernando gostava do cheiro de
leite azedo que exalava de suas próprias axilas. Cheirava, preferencialmente, a
da esquerda. “É a do coração.” Doce rotina de um pacato cidadão.
Mas havia um segredo que titio
guardava a sete chaves: um cofre escondido na parte de cima do armário. O homem
alimentava uma compulsão para economizar, ainda que a aposentadoria lhe desse
conforto suficiente para viver aquela vida de nenhum sonho e de muita sovinice.
Luciana notou os hábitos reprováveis
do parente do marido e descobriu também o cofre, olhando pelo buraco da maçaneta
da porta do quarto dele. Deliciava-se com a cena do velho seminu, sentado na
cama, tomando banho de notas de todos os valores.
Tarso custou a concluir que o seu
casamento corria perigo caso eles continuassem morando na casa de tio Carlinhos.
Em vez de assumir um lar com todas as despesas, ele comparecia diante do tio com
uma módica ajuda para as contas. Além disso, escalou Luciana para fazer a comida
e a faxina diariamente. Ela por eles.
– Ficamos aqui até nos ambientarmos à
cidade, amor. Assim, juntamos um dinheirinho e evitamos susto com o
imponderável. Depois procuramos com calma um canto para a gente viver, algo que
seja só nosso.
Ainda que reclamasse privacidade e
tivesse a noção exata das possibilidades financeiras do marido de conquistar
logo “algo que seja nosso, só para nós dois”, Luciana aceitou seus argumentos.
Mas, ela tinha certeza de que aquela situação cheirava a tragédia.
As refeições à mesa eram
desagradáveis, pois que os olhares descarados do parente na direção do seu colo
a incomodavam deveras. Além disso, entre um “passe o feijão e, por favor, a
carne”, ele esfregava a mão na dela. Num desses obsequiosos pedidos de passe
isso e aquilo, o velho encostou a mão suja de frango no braço de Luciana. Ela
precisou sair correndo da mesa a tempo de alcançar o banheiro para vomitar.
Os dias se passavam e a paciência da
moça se esgotava. Sozinha, com o marido no quarto, Luciana disse que ficava
constrangida com os modos pouco ortodoxos do tio à mesa. Mãos sujas na comida,
arroto e gazes sem demonstrar qualquer sinal de respeito com os
hóspedes.
Tarso contemporizava.
– É apenas um velho solitário
chamando a nossa atenção, amor. Logo nos livraremos dele. Peço calma, mais uma
vez. Estou com problemas no Ministério e preciso me concentrar em questões mais
importantes.
“Questões mais importantes. Esse
idiota acha que esse velho me comendo com os olhos é menor do que aqueles
corruptos roubando no Ministério?”
A tragédia que envolveria aquela
família nada cristã, porém, estava anunciada. Aconteceu no dia em que tio Carlos
Fernando exauriu de vez a paciência de Luciana e ela resolveu mostrar ao velho
que é mais do que um rostinho bonito.
Dois dias depois de Luciana reclamar
da situação com o marido, titio ficou mais um pouco na cama e se levantou por
volta das onze horas. Naquele dia ele deixou de ir a Copacabana para garimpar. A
manhã, contudo, correu sem sobressaltos. Luciana e o velho passaram calados, mas
ele grudou os olhos nela. Isso a incomodou, sobretudo quando ficou de costas.
Nesse clima de tensão, a moça arrumou a casa e, ao meio-dia, anunciou que a
comida estava pronta.
Entre uma garfada e outra, Luciana
folheou uma revista, sem olhar para o lado ou para frente. Carlos não tirou os
olhos dela e chegou a errar várias vezes o trajeto do garfo até a boca, jogando
comida sobre a toalha e no chão. Depois do almoço, Carlinhos seguiu para o
quarto. Vestiu calça e camisa, calçou sapato e avisou à sobrinha que iria ao
banco. Luciana enfim respirou aliviada e ficou como gostava: sozinha.
Ela arrumou a cozinha e depois também
se trancou no quarto. Incomodada com o calor, trocou a saia por um short de
lycra que lhe desenhou virilha e nádegas. Por cima da pele muito clara, apenas
uma camiseta branca e confortável que contornou os seios pequenos e
consistentes. Assim voltou à sala e se jogou no sofá.
Com os pés sobre a mesa de centro,
enquanto acendia um cigarro e estalava o lacre da lata de cerveja, ela apontou o
controle remoto na direção da televisão.
Os cabelos soltos e a ausência de
maquiagem lhe davam ar ainda mais sensual. Relaxada, porém, ela não viu que
Carlos a observava. Titio chegara pelos fundos sem fazer barulho e ficou parado
na porta que separava a sala da cozinha. Ali permaneceu, sabe-se lá por quanto
tempo. Quando ela o viu, ele abriu um sorriso mais do que maroto no canto do
lábio, satisfeito por poder contemplar, sem censura, tantos e tão desejáveis
atributos.
Luciana se assustou e, constrangida,
tratou de se recompor. Jogou os pés no chão, soltou o controle remoto sobre a
mesa e tentou esconder o cigarro. Sua vontade era engolir a cerveja com lata e
tudo.
Estava armado o cenário da grande
tragédia. Havia de um lado um Carlos Fernando disposto a dar vazão ao seu desejo
incontrolável de amar aquela mulher, e do outro, alguém com absoluta
indisposição para tanto.
A temperatura ambiente subiu à
estratosfera. Titio sentiu uma vontade enorme de ficar nu e de pedir que ela o
acompanhasse. A excitação lhe transpôs os sentidos a ponto de subtrair a razão e
multiplicar o desejo.
A situação ficou incontrolável. Da
parte dele, pela determinação de matar ou morrer para tocar aquele corpo como
sempre desejou, ou seja, com as duas mãos e os olhos fechados. Dela, apenas de
matar para evitar que as mãos peludas e com cheiro de frango assado, que viviam
enfiadas dentro da cueca e do nariz, encontrassem seus seios formosos e
delicados.