quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O álbum de casamento

            Por Joaquim São Pedro

O casamento de Rodolfo e Dorothéa acabou depois de quinze anos. Sem chance de volta. Havia muito eles ensaiavam a separação, mas foram adiando. Talvez a razão maior para continuarem sob o mesmo teto fosse a filha de 13 anos, com quem o pai se dava muito bem. 
           Mas quando Rodolfo conheceu Regina Célia, encontrou também o motivo que precisava para tomar novo rumo. Levou poucas coisas, só roupas e objetos pessoais. Mas o que mais queria, ele não conseguiu levar: a filha. A vontade de Paulinha era morar com o pai, mas ela foi vencida pela chantagem da mãe, que ameaçou se matar se a filha fosse viver com a madrasta. 

Regina Célia era colega de trabalho de Rodolfo. Ele já estava na construtora quando a moça, recém-formada, foi contratada. A empatia foi imediata. Da troca de olhares nas reuniões até a primeira oportunidade de ficarem sozinhos, depois de um jantar em que ele ofereceu carona e ela aceitou, foram três meses. Daí em diante os dois se encontraram com frequência cada vez maior, até resolverem alugar uma casa juntos.
             Dorothéa se sentiu a última das mulheres. Da depressão ao sentimento de vingança, foram seis meses. Passada a fase do isolamento, ela foi à euforia. Assim, passou a procurar o ex-marido por qualquer coisa.

Regina era muito paciente e se recusava a entrar no jogo. Logo entendeu que Dorothéa queria apenas desestabilizar seu casamento, numa espécie de troco pelo fato de ela ter provocado a separação do casal.
- Alô, Rodolfo?
- Oi, Dorothéa!
- Você sempre de mau humor?
- Não, Dorothéa. Fico assim quando você me liga.
- Grosso!
- Por favor, diga logo o que você quer.
- Falando nesse tom grosseiro, era melhor me mandar à merda, meu querido.
- É tudo o que você quer para começar a se lamentar, me chamar de canalha, me jogar na cara que abandonei o nosso lar por causa de uma vagabunda e começar a chorar. Como você é previsível, Dorothéa.
- Você antes me chamava de Doró.
- Antes, Dorothéa. Agora chamo pelo nome, porque as circunstâncias mudaram. Quero muita formalidade entre nós. É melhor. Sem intimidade, vai.
- Porque você quer, seu rancoroso!
- Rancoroso? Eu? Você nem conversou comigo antes de ir à Justiça por causa do apartamento. Você me tirou tudo e agora quer que eu a chame de Doró. Como se nada tivesse acontecido? Ora, me poupe. Eu não sei se você é cínica ou debochada.
- Mas eu pensei que você fosse passar o apartamento para o nome daquela vagabunda. Eu precisava pensar no nosso futuro, na nossa filha.
- Por favor, Dorothéa. Nosso futuro? Nossa quem? Você nem queria ficar com a Paulinha. Queria que ela fosse criada pela sua irmã.
- Mentira. A sua mulherzinha é que queria tomar a minha filha.
- E queria mesmo. Elas se dão muito bem. Não fossem as nossas viagens a trabalho, minha filha moraria comigo.
- Mas ela ficou comigo, seu bobo.
- Mas o juiz teve bom senso quando proibiu que você entregasse nossa filha para a sua irmã.
- Hummm.
- Mais a mais, respeite quem não tem nada a ver com as suas paranoias. A Regina nunca teve a intenção de tirar o apartamento da nossa filha.
- Foi por causa dela que eu fui à Justiça. Para garantir o bem da nossa menina.
- Você só foi à Justiça para me infernizar. Queria me tirar o sossego. Mas vamos encerrar a conversa. O que você quer?
- Eu só queria dizer mais uma coisa: você saiu de casa porque quis.
- Foi isso mesmo, saí porque quis. Fiz o que achei mais honesto pra nós dois.
- Honesto? Você fica se arvorando de honesto para que eu me sinta uma ladra?
- O que você sente ou deixa de sentir por eu ter saído não me interessa mais, Dorothéa. Já conversamos sobre isso. Diga o que você quer, senão vou desligar o telefone.
- Só mais uma coisa: quando eu digo que você saiu de casa porque quis é porque pode voltar quando quiser. E veja que eu estou me humilhando pra dizer isso.
- Você está casada, mulher...
Para tentar amenizar sua frustração, Dorothéa havia se casado com um ex-namorado da adolescência que reencontrou num desses bailes dos Anos 80. Mas ela nunca escondeu de ninguém que, se Rodolfo estalasse o dedo, ela mandaria o marido embora e depois levantaria o lençol para que o ex-marido se esquentasse.
- Você entendeu, Rodolfo. Sou sua quando você quiser.
- Eu poderia ir ao seu marido e dizer isso que você está me dizendo.
- E depois assumiria suas palavras e as consequências delas?
- Como assim, Dorothéa?
- Vá, diga a ele que eu deixei as portas abertas pra você entrar. Aí, ele vai embora, me deixa sozinha e você volta com a sua mala cheia de amor pra me dar.
- Eu não acredito no que estou ouvindo, mulher.
- Pode acreditar, meu amor. E digo mais: você é o homem da minha vida. É o que eu sinto e pronto. Não minto pra mim e nem pra você. Se o Cléber me perguntar, eu digo. É porque ele nunca me perguntou se eu ainda gosto de você. Ele me aceita como eu sou.
- Tire isso da cabeça, Dorothéa. Não temos mais nada a ver. Nós nos casamos muito cedo. Crescemos, amadurecemos e nossas diferenças apareceram. Nós nos tornamos dois estranhos.
- É porque os meus peitos caíram? Posso mandar o médico levantar.
- Não diga bobagem, Dorothéa. Isso é chantagem.
- É o que então? Celulite? Mando o médico tirar.
- Já expliquei inúmeras vezes, Dorothéa. Acabou, apagou a chama...
- Isso mesmo, acabou a excitação. Não tenho mais aqueles peitinhos e aquela bundinha empinada. Estou gorda. Eu faço regime. Peço para o médico...
- Você deveria pedir aos médicos um remédio pra sua paranoia. Por favor, diga o que você quer. Se não, vou desligar.
Ele se impacientava, com uma disposição cada vez menor para ouvi-la. Daquela vez, porém, a ex-mulher tinha algo no mínimo curioso a resolver com ele:
- O que faço com o nosso álbum?
O matrimônio pode não ser, mas o álbum de casamento é para sempre. Alguns casais brigam pelo direito de levá-lo. O registro de um momento único. Não era o caso de Rodolfo e Dorothéa. Estava claro que, pouco preocupada com o álbum de retrato, ela procurava mesmo era um pretexto para tirar o ex-marido do sério.
- Que álbum, Dorothéa?
- Que álbum? Que álbum? O nosso álbum de casamento, claro.
- Não sei. Guarde com você.
- Guardo comigo para matar a saudade de vez em quando? Ou para mostrar ao meu marido quando nós estivermos falando do passado?
- Olha, Dorothéa. Cada vez que conversamos, eu me surpreendo. Você quer me infernizar, não é? Então, me diga: qual é a sua sugestão? O que fazer com o álbum de casamento?
- Sei lá. Mando entregar na sua casa?
- Nem pensar.
- Por quê? A bruaca vai ficar com ciúme?
- Mais respeito, Dorothéa. Não tem por que mandar esse álbum lá pra casa. Não nos diz respeito.
- Mas diz a nós dois.
- Eu concordo. Mas não estou interessado nele.
- Então vamos decidir o que fazer com ele, meu amor.
- Acho que você deveria jogar fora.
- Como? Enlouqueceu? É a história de uma vida. Foram quinze anos de casamento. É a nossa história.
- E a quem interessa a nossa história, Dorothéa?
- Aos nossos parentes e amigos... Você está rindo?
Na medida em que percebia que a intenção da ex-mulher era desestabilizá-lo, Rodolfo se perguntava por que ainda atendia ao telefone quando ela ligava e por que ainda conversava com ela.
- Só rindo, Dorothéa. Os meus parentes odeiam você. Os seus também me odeiam. Meus amigos nem lembram que você existe. Não levo o assunto “Dorothéa” para as minhas rodas de samba e para o meu futebol.
- Samba? Sempre agarrado àquelas mulatas bundudas, enfiadas em fio dental, seu safado.
- Qual é o problema das mulatas, Dorothéa?
- Nada. Nada. Se quiser, eu mando o médico colocar em mim uma bunda de mulata.
- Santo Deus! Esse seu racismo ainda vai encrencar você  um dia, Dorothéa. Tome cuidado.
- Estou com ciúme, só isso. Não tenho nada contra as mulatas.
- Por favor!
- O que fazer com o álbum, Rodolfo?
- Jogue fora e pronto.
- Não. Não jogo. Você gastou quase todo o seu salário pra pagar. Você era pobre, ganhava pouco.
- Pobre não, Dorothéa. Eu começava a minha vida profissional. Ganhava pouco, mas estava só no início da minha carreira. E você, está tão preocupada com o meu dinheiro?
- Sempre estive, meu bem. Se eu não fosse uma mulher austera, não teríamos comprado este...
- Apartamento? Nós? Fui eu que comprei. Meu pai me deixou uma herança e eu dei de entrada. Aliás, mais de 50% de entrada. O resto eu paguei com o meu trabalho.
- Mas eu apoiei você o tempo todo. Por trás de um grande homem...
- Você é muito cara de pau, mulher. Queria poder gravar essa nossa conversa para anexar ao processo de resgate do meu apartamento. Mas ele vai voltar pra mim sem precisar que eu difame você na frente do juiz. Veja como eu sou legal.
- Nunca. Só saio daqui morta.
- Não seja cínica, Dorothéa. Se a Justiça decidir, você e o seu marido parasita saem na hora.
- Volte e o Cléber vai embora... Você ainda está aí?
- Estou, Dorothéa. Você fala tanta besteira que às vezes eu sou obrigado a ficar mudo.
- O que vamos fazer com o álbum de casamento?
- Acho que você deveria queimar.
- Não jogo fora, nem dou ou queimo. É a lembrança de um momento que eu vivi. Fui muito feliz no nosso casamento.
- Concordo. Se você viveu. Se foi feliz, então guarde o álbum.
- E você também viveu...
- Não nego, Dorothéa. Mas quero esquecer que vivi e queria que você se livrasse desse álbum.
- Não conseguirá, meu amor. Você vai se lembrar de mim para sempre. Não são vocês machistas que ficam dizendo nas suas rodas de cerveja que ex-mulher é para sempre?
- Machista? Eu? Nunca disse isso...
- Mas pensou, meu amorzinho.
- Por favor, Dorothéa. Passei o meu almoço no telefone com você. O prato está intacto na minha frente. Não vou mais comer...
- Vem almoçar aqui em casa, preparo o bife que você gosta.
- Vou fingir que não ouvi, Dorothéa.
- O que fazer com o nosso álbum de casamento?
- Dê de presente para a sua mãe. Aquela bruxa me odeia mesmo.
- Você gostaria que a minha mãe morresse, não é?
- Gostaria. Nem ia ligar!
- Monstro!
A sogra é um caso à parte nos casamentos. Pode representar a segunda mãe para ele ou para ela. Mas também pode transformar a vida do casal num inferno.
Pelo jeito, a sogra de Rodolfo não teve qualquer responsabilidade no fim do casamento da filha. Depois de ofender a mãe de sua ex-mulher, ele se arrependeu:
- Desculpe. Não chore. Eu não deveria ter dito. Saiu sem querer. Eu sei que sua mãe não gosta muito de mim, mas isso passou.
- Mas disse. Ela nunca prejudicou você. Já até ficou contra mim pra te dar razão, seu ingrato.
- Desculpe, Dorothéa.
- Não desculpo. Minha mãe é uma pessoa respeitável. Sempre torceu para que o nosso casamento desse certo.
- OK. Eu sei. Eu tenho o maior respeito pela sua mãe.
- Você é um ingrato. Quer jogar pra cima dela a culpa do nosso fracasso.
- Não quero nada, Dorothéa. Já me desculpei.
- O que nós vamos fazer com o álbum de casamento? E não diga o que você está pensando. Você está rindo?
- Só rindo, Doró...
- Você me chamou de Doró...
- OK. Chamei. O que você quer que eu faça pra gente encerrar essa conversa?
- Dê uma solução para o álbum, que você insistiu tanto em fazer. Ao invés de álbum, poderíamos ter ido passar a lua de mel em Buenos Aires.
- OK. Mas eu queria o álbum. Eu estava apaixonado por você. Naquele momento era mais importante que uma viagem à Argentina, agora não é mais. Não nos amamos mais...
- Você não me ama mais.
- OK. Eu não amo. Agora, o que você vai fazer com o álbum eu não sei.
- Sabe sim. E está doidinho para mandar eu...
- Por favor, Dorothéa. Faça o seguinte: mande pra minha casa. Eu vou guardar. No dia que você quiser, mando entregar de volta.
- Nem pensar. Pra depois você e aquela lambisgoia ficarem rindo de mim...Já estou vendo essa aí folheando o álbum e comentando a meu respeito: como ela era magra, agora está enorme de gorda. Os dois vão rir de se jogar no chão.
- Ninguém vai caçoar de você, Dorothéa. Eu vou guardar o álbum num lugar seguro. Deixo no meu escritório e tranco com a chave, pronto. Ela não entra lá. Minha mulher é muito discreta. No dia em que você quiser, pode pedir de volta. Eu entrego.
- Não mando. Quando vocês brigarem, aquela mulher vai rasgar o meu álbum e jogar na sua cara.
- Então, se você não quer jogar fora e nem me entregar, pode guardar.
- Mas o Cléber pode se aborrecer...
- Ah, entendi. Ele pode não gostar e você me procura pra dar um jeito no álbum.
- Porque o problema é meu e seu e não meu e do Cléber.
- O que me cabe nesse latifúndio, minha querida, eu passo pra você de papel passado. Faça do álbum o que achar melhor. Só me comunique o que resolveu fazer e terá todo o meu apoio. Integralmente.
- Engraçadinho. Diz isso porque deixou de ser o homem sensível que eu conheci. Não fala comigo mais com doçura na voz. Que me deixava toda excitada.
- Por favor, Dorothéa. Eu já estou chegando no escritório e você não tomou a decisão.
- A decisão é sua, meu amor.
- Mande lá pra casa, então.
- Venha buscar aqui em casa.
- Tudo bem, Dorothéa. Quando?
- Sexta à noite. O Cléber viaja de manhã.
- Você é louca...
- Por você, meu homem...
- Passo aí sexta-feira à noite, então.
- Vou preparar o salmão que você... Desligou. É um grosso. Nem se despediu. É um doce e adorável grosso. Vou preparar o salmão que ele adora e comprar o vinho que o deixa excitado e doidinho por mim. Meu querido e eterno álbum de casamento, só mesmo te dando um beijo...
Fim


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Ofereço-te a minha mulher

            Por: Joaquim São Pedro

Conheci Geraldo e Jair numa mesa do Beirute, o bar mais célebre de Brasília, uma cidade a que ainda falta aos lugares a impregnação de história e histórias. O Beirute é uma exceção. Ali já se bebeu, falou-se e já se fez tanto que o ambiente está denso de emanações. Um observador mais atento ao que chamam de mundo espiritual, ou com grau etílico exacerbado, pode até flagrar conversas de há muitos anos flutuando na mesa ao lado.

Não é o caso da história que passo a contar. Geraldo e Jair não sabem que eu existo. Digo, seguramente me viram ali, mas eu era mais um vulto naquela noite em que os vi conversar numa das mesas do Bar. O da 109 Sul, deixo bem claro, não a filial da Asa Norte.

Pelo que pude perceber, eles se conheceram naquele ambiente e ali consolidaram a amizade. Muito provavelmente, Geraldo tinha quase o dobro da idade de Jair. O primeiro viera de Minas nos primeiros anos da capital.

O outro, um paulista. Vivia na cidade havia menos tempo, uns 15 anos, segundo deduzi por um comentário. Apesar de parecerem íntimos, o clima do encontro era solene, pelo menos da parte de Geraldo.

- Como vai, Jair?

- Tudo bem, Gê? E você?

- Tudo em ordem. Mas o que aconteceu, meu amigo. Você me ligou meio aflito, parecia ansioso. Algum problema?

- Não... Sim... Quer dizer, não tem problema, mas tem.

- Êpa, o amigo tá que é uma confusão só. Quer tomar uma cerveja pra relaxar? To achando você muito tenso...Cícero, desce mais uma!

- Tá rindo, seu malandro? É por que você não chegou ainda os 65.

- To rindo do seu jeito confuso, Geraldo. Que dizer alguma coisa?

- Preciso te falar sim, Jair.

- Diga, então, meu caro.

- É um assunto delicado. Passei os últimos dias pensando nisso. Foi muito difícil tomar uma decisão.

- O meu amigo vai mudar o nome para Confusino. Ou, Confusildo?

- Desculpe, Jairzinho. To mesmo muito atrapalhado das ideias. Mas, to decidido também.

- Pô, agora você me pirou, cara. Confuso, mas decidido. Como é isso?

- É coisa da idade, amigo. Renúncia!

Geraldo rodeava, escolhendo as palavras. Parecia inclinado a fazer ao amigo, como de fato ocorreu, uma proposta incomum. O que ele disse representava abdicar da própria felicidade.

O homem havia chegado à conclusão de que àquela altura de sua vida em breve se tornaria um estorvo na vida da esposa. E que, para o bem-estar dela, o melhor seria se separar, viver na solidão.

Geraldo era bem casado. Isso ficou claro durante a conversa. E ele estava prestes a dizer ao amigo que, ainda assim, amando a mulher como nunca, pediria o divórcio. Incrédulo, apurei os ouvidos para seguir a conversa enquanto punha o olhar do mulherio que circulava, de modo a disfarçar minha bisbilhotice.

- Renúncia? Como assim? Que eu saiba você não é político pra renunciar.

- Não são apenas os políticos que renunciam, meu caro. Nós, mortais, renunciamos igualmente. Quando nos casamos, renunciamos à libertinagem. Ou não?

- Não sei, nunca fui casado.

- Mas é, meu caro. O homem vive renunciado. Não preciso falar dos contratualistas, como de Rousseau, que você estudou. Renunciar à liberdade, amigo, em favor da proteção.

- Ok, professor. Mas qual é o problema? Até agora só vi rodeios e filosofia. Já estamos indo para a segunda cerveja e nada. Acho que vamos tomar um porre e você não vai se explicar.

- É verdade, to mesmo girando em círculo, né? Pede uma bem gelada, vai! O Beirute é o bar por excelência de Brasília, parece que a aqui a cerveja desce melhor.

- Com certeza. Mas não vamos ficar aqui elogiando o Beirute pra ver se ganhamos cerveja de graça, né? Vamos ao que interessa?

- Tim-Tim! Gelada, heim!

- Tim-Tim. Sempre. Ufa!

Às vezes a bebida enche o homem de razão. Ele fica valente, romântico ou dono situação. As decisões até fluem. Mas na hora de anunciar sua decisão, se é que era uma decisão, Geraldo (aqui o trato com a amizade de um companheiro de mesa) vacilou. Ainda estava faltando bebida ou coragem? Seria isso mesmo o que ele queria? Parecia que sim.

A dificuldade era botar pra fora. Mas isso eu só entenderia mais à frente. É que Jair estava diretamente envolvido. De maneira surpreendente, Geraldo decidiu o seu destino, o da mulher e poderia estar prestes a informar ao próprio amigo que decidira também o destino dele. Sem consultá-lo:

- Como eu ia dizendo...

- Você não ia dizendo nada, Geraldo.

- Mas agora vou dizer.

- Então manda logo, sujeito.

- Bem, é um assunto muito delicado. Primeiro preciso dizer que quero a sua ajuda. Eu te considero o meu melhor amigo.

- Obrigado, Gê.

- Bom, meu amigo Jair. Vou te pedir um favor...

- Já começou a me enrolar de novo, sujeito. Entra logo no assunto.

- Tá bom. Vamos lá. Mas me deixe fazer um preâmbulo.

- Preâmbulo é muito bom. Manda o seu preâmbulo. Cícero, traga mais uma...

- Bem. Sou casado...

Casamentos só acabam se faltar amor. O resto se arranja. Não era o caso do casamento de Geraldo. Na conversa com seu amigo, ele deixava cada vez mais claro que amava sua mulher. Mas ele estava prestes a anunciar ao amigo, porém, que renunciaria ao amor.

- Com a Gilza. Já sei, há pelo menos 20 anos, meu amigo Geraldo.

- Com a Gilza. O amor da minha vida.

- Isso também, eu já sei, Gê. Gilza é o amor da sua vida.

- Amo minha mulher, Jairzinho, mas vou me separar dela.

- Enlouqueceu! Hoje, por acaso, é o dia da contradição? Primeiro você diz que está confuso, mas decidido. Agora diz que ama a Gilza, mas que vai se separar dela. Ela pediu o divórcio, então? Ela não te quer mais?

- Não é isso, homem. Ela nem imagina que eu tomei a decisão de me separar. Pelo menos ainda não conversei com ela. Resolvi que primeiro conversaria com você.

Geraldo começava a revelar que se separaria numa decisão unilateral. Ainda que refletida e amadurecida. Não acreditei. Refletida? Amadurecida? Parecia mais um caso de fraqueza. Covardia.

- O meu amigo Geraldo decidiu o destino da mulher dele sem conversar com ela. Pode isso?

- É mais ou menos isso, Jair.

- Tá louco? Só pode ser.

- De amor pela minha mulher, Jair. Só tomei a minha decisão de abandoná-la porque a amo muito.

- E por estar louco de paixão pela própria mulher, quer se separar dela?

- É, meu caro. Em respeito ao que sinto por ela.

- Geraldo, vamos conversar direitinho. Conta o que está acontecendo com você.

- Posso pedir mais uma gelada? Cícero!

- Agora, me fala. Você está doente?

- Não, Jair. Quer dizer, to.

- Definitivamente, meu amigo, hoje você está fora do seu juízo. Agora diz que está e que não está doente.

- Não estou doente, pô. Não tenho um câncer! Minha doença é a velhice. É isso que estou tentando te dizer. A Gilza tem 30 anos menos que eu. Não sou mais um amante fogoso, cheio de vitalidade, capaz de satisfazer plenamente uma mulher tão nova, irradiando saúde.

Enquanto destroçava um quibe assado e digeria aquela história amalucada, refleti um pouco sobre a excessiva preocupação do homem ocidental com a sua virilidade.

Seria um exercício quase inimaginável de humildade se ele chegasse para a mulher amada e dissesse: “meu amor, não estou dando conta mais. Peço desculpas. Minhas energias se esgotaram. Vamos pensar juntos numa solução?”. Com certeza, ela diria: vamos a um médico. Simples assim.

- Bem, e daí, Geraldo?

- E daí, que Gilza é uma mulher que tem uma vitalidade enorme. É jovem, bonita e adora fazer sexo.

- Tudo bem, mas e daí, Geraldo?

- Ela precisa de um cara mais vigoroso, que a acompanhe e a satisfaça. Que a leve para dançar, para festas, para o motel, para viajar.

- Geraldo, aonde você quer chegar?

- Na minha decisão de me separar, porra. Tenho medo...

- Medo? Meu amigo, eu posso te dizer uma coisinha? Ou melhor, te fazer uma perguntinha: ela tem reclamado do seu desempenho, da sua indisposição para dançar, para passear, para ir ao motel?

- Não tem. Aliás, ela não tem reclamado de nada do casamento.

- Então, sujeito. Se a mulher não reclama com você, do que é que você tem medo?

- Tenho medo de que ela venha um dia a reclamar. E que eu me sinta um inútil. Prefiro sair da vida dela antes que isso aconteça.

- Geraldo, meu caro amigo, meu irmão mais velho, vou te dizer mais uma coisa.

           - Fala, meu irmão.

- Você precisa parar com isso. Não tome decisões pelos outros. Faça uma coisa: se não tá se sentindo legal, vai viajar. Passe uns dias fora. Fale com a Gilza: diga assim: meu amor, eu vou realizar um sonho de dar um giro pela Europa. É um sonho antigo, que eu quero realizar. Ela vai compreender. Aí, quando você voltar, conversa com ela sobre tudo isso.

Diante do que ouvia e depois de mais um gole de cerveja, arrisquei uma metáfora: casamentos quase falidos podem pedir concordata, como um tempo, ou um empréstimo para se capitalizar, como uma viagem, uma plástica, uma terapia de casal.

Daí em diante é assim: ou um sente falta do outro e a relação apruma e retoma o ritmo ou vai à bancarrota de vez.

- Será que ela vai estranhar, Jair? Eu sair sozinho por aí. Será que vai pensar que eu tenho algum problema?

- Pode até estranhar, mas se você for sincero, ela até vai te dar uma força. A Gilza é uma pessoa muito generosa.

- Você conhece bem a minha mulher, Jair?

- Ora, Geraldo. Eu a conheço mais ou menos no mesmo tempo que você conhece. Esqueceu-se de que eu apresentei vocês dois no samba? Faz vinte anos, mas eu me lembro bem. A gente estava no samba, ela me apresentou uma amiga e eu te puxei pra nossa mesa. Vocês dois começaram a conversar e logo se pegaram. Dalí mesmo vocês partiram para o compromisso sério.

- É verdade, amigo! Você nos apresentou. Já tinha me esquecido disso.

- Então, eu a conheço também. E sei que ela está feliz ao seu lado.

- Mas eu não estou feliz porque sei que não a faço completamente feliz.

- Ora, que bobagem. Ela é uma mulher adulta e pode fazer as suas escolhas. Gilza tem capacidade de avaliar se está feliz ou não e se é hora ou não de ir embora.

- Eu vou me separa dela, Jair.

- Por que, Geraldo? Até agora você não me deu uma razão consistente para essa decisão, que eu acho idiota. Me desculpe falar assim, amigo. Mas é o que estou sentindo.

- Eu sei que é idiota, Jair. Mas está decidido. Me separo da Gilza e me mudo para uma praia. Vou arrumar lugar onde eu possa ver o mar todos os dias. Não vou mais ter mulher nenhuma por perto. Vou me abster definitivamente de fazer sexo. Quero viver só. Morrer só.

Pobre Geraldo. E eu nem o conheço e nunca mais o vi. Mas optar pela solidão, por que se convenceu de que não tinha mais condições de continuar casado com a mulher que ama, era muito triste.

A solidão pode acontecer pra qualquer um, mas não deve ser nunca algo a que um ser humano se dê ao luxo. Uma “opção” assim definitivamente cobra um preço alto. O certo é que aquele homem estava simplesmente fugindo de sua felicidade.

- Ah, não acredito que estou ouvindo isso, Geraldo. Não faz sentido. Você está com alguma doença, meu amigo? Pode se abrir comigo. Está desenganado pelos médicos?

- Não, só estou velho, rabugento, sem saco pra nada. Não quero ser um egoísta com ela.

- Mas o que você está sendo agora, Geraldo? O mais egoísta dos egoístas. Acaba de decidir o destino da sua mulher sem discutir com ela. Sem dar a ela qualquer alternativa

- Sei, mas vou me separar assim mesmo. É melhor pra ela.

- Bem, você vai se separar. Vai chegar para a Gilza e dizer: meu amor, eu te amo, mas broxei. To saindo fora, porque vou me mudar sozinho para um praia. É isso, Geraldo? É o que você vai jogar na cara da sua mulher? Depois de vinte anos de casado?

- Tenho alternativa?

- Ora, camarada. Não tem alternativa porque não tem problema algum pra ser resolvido. Você está inseguro e é natural. Está sentindo-se velho e é natural. Mas precisa encarar os seus sentimentos, o seu momento de instabilidade, e pedir ajudar. Você precisa ter coragem de discutir o seu problema com a Gilza. E não fugir como um covarde, com esse discurso de que está fazendo o melhor pra ela.

- Não vou discutir nada. Só vou dizer que estou saindo da vida dela.

- Bem, Geraldo, você é teimoso, insiste na sua teimosia e vai sofrer. Acho que você está errado e que vai cometer suicídio. Mas se decidiu...

- Decidi, amigo. E decidi mais.

- O que você decidiu mais?

- Que vou aproximar vocês dois.

Ao ouvir aquilo, tive vontade, é claro, muita vontade de rir. Me contive e o que fiz foi aguçar ainda mais os nervos auditivos, certo de que viria muita novidade pela frente. Geraldo queria unir a mulher amada ao amigo. Algo para dar errado sem sombra de dúvida.

- Como assim, Geraldo?

- Você está solteiro, tem 45 anos. Dentro de algumas horas ela vai ficar solteira, perto dos 40. Vocês serão livres. Vocês regulam na idade. São duas pessoas que gostam das mesmas coisas. E vai me dizer que não acha a Gilza uma mulher atraente, sensual, bonita, gostosona?

- Geraldo, definitivamente, você enlouqueceu. Perdeu o juízo e a razão. Ateu eu sei que você é. Por isso nem vou dizer que perdeu a fé. Mas que perdeu o rumo, isso tá na cara.

- Tudo bem, Jair. Mas você concorda que eu aproxime vocês dois?

- Ficou louco! Não está entendendo nada. Desde que nós chegamos aqui, você só disse bobagens. Agora que me envolver. Faça-me o favor, Geraldo...

- Me separo dela hoje e digo que você se interessa por ela, que a acha atraente e coisa e tal. Depois da minha separação, nós dois esfriamos a amizade e nos distanciamos. Ela vai ficar só. Ai você se aproxima dela pra consolar. Tenho certeza de que ela vai gostar de você.

- Geraldo, eu e a Gilza somos amigos há mais de 20 anos. O que tínhamos de sentir um pelo outro já sentimos. Qualquer outra forma de relacionamento com ela, já morreu, meu caro.

No intervalo Jair foi ao banheiro. Enquanto isso, eu ganhei fôlego para minhas elucubrações: um amigo faz por outro o que não faz por um parente. Jair aceitaria uma aproximação com a mulher do amigo, por iniciativa do próprio? Ele voltou e a conversa continuou.

- Você que pensa, Jairzinho. Morreu não, adormeceu. É só despertar que logo vocês ficam juntinhos. São novos, cheios de vida.

- Geraldo, eu vou te contar uma coisa?

- Depois, primeiro deixa em falar. Um dia desses estávamos eu e ela na cama. Aí eu perguntei com qual dos meus amigos ela transaria. Sabe o que ela me respondeu?

- Não, Geraldo!

- Você, meu caro. Você já sabia que ela tem uma queda por você? É só aproveitar. Vou embora da vida dela...

- Geraldo, eu e a Gilza já namoramos. Tivemos um caso antes de ela te conhecer. Quando eu apresentei vocês dois, eu já havia me separado dela. Isso foi há muito tempo. Depois vocês casaram. Passou, meu caro. Para mim, ela é a mulher do meu melhor amigo, nem a vejo como uma ex-namorada.

Caramba, eu exclamei com os meus botões. Então, o Jair já teve um caso com a mulher do Geraldo. Isso é traição. Mas foi antes de Geraldo se casar com Gilza. E agora? O mais estranho foi a reação de Geraldo. Coisa de louco:

- Então vocês já se conheciam? E já haviam transado quando você me apresentou a ela?!

- Sim.

- Que louco!

- Vocês começaram a sair e, daí em diante, eu e ela não nos vimos mais. Até que passei a reencontrá-la apenas na sua companhia. Nunca mais nos tocamos. Ela se apaixonou por você, Geraldo.

- Canalha!

- O que é isso, amigo? Não diga isso da sua mulher.

- Você é um canalha. Gilza é uma vagabunda.

- Calma, rapaz. Nós estamos conversando. Eu só estou te contando o que aconteceu, para te dar uma prova da nossa amizade e do amor que ela sente por você. Gilza teve muita personalidade quando te assumiu e esqueceu o resto.

- Vagabunda!

- Geraldo! Não diga isso, não seja leviano. Ela gosta muito de você e nem precisa provar nada a ninguém.

- Vigarista. Ela te conta na cama o quanto ela gosta de mim? Vocês acabam de trepar, acendem um cigarrinho e ela diz: com você é bom, Jairzinho, mas com o Geraldinho Corninho é muito melhor. É assim que ela diz? Me conta!

- Vou-me embora, Geraldo. Se você não se acalmar e baixar o tom de voz, eu vou-me embora. O pessoal daqui do Beirute me conhece e eu não estou a fim de armar nenhum barraco.

- Barraqueira!

- Você está descompensado. Para com isso, cara.

- Descompensado? Eu sou é corno. Um corno de quase setenta anos. E você me diz que estou descompensado?

- Geraldo, há alguns minutos você queria me entregando a sua mulher de bandeja. Agora que te contei uma passagem das nossas vidas, que falei da grandeza do gesto dela, de ficar contigo, você me esculacha e ofende a sua mulher? Que porra é essa, meu?

- Quem disse que ela te largou pra ficar só comigo?

- Ora, Geraldo. Foi decisão dela. Gilza casou contigo. Nunca mais nos encontramos a sós. Eu só a vi nesse tempo todo na sua companhia. E feliz, muito feliz.

- Por causa do meu dinheiro...

- Enlouqueceu de vez. Geraldo, Gilza pode ser tudo...

- Puta...

- Não diga isso, cara. Ela pode ser tudo, menos adúltera.

- Se dormir com você não é adultério, é o que, então, Jair?

- Vocês não eram casados. Nós nos conhecíamos há mais tempo. Tivemos um caso que terminou antes de ela te conhecer e resolver que você era o homem da vida dela.

- Entrei na vida dela quando a conheci. Fui de cabeça, com fé e coragem. Ela não podia ter feito isso comigo.

- Não fez, Geraldo. Quando você conheceu a Gilza ainda tinha aquele caso mal resolvido com a sua ex-mulher. Gilza aceitou tudo e te deu o tempo que você quis. Ela nunca te cobrou nada. A coisa ficou séria quando você se livrou da sua ex-mulher e a Gilza entendeu que te amava.

- Ela te contou isso na cama, aquela vagabunda?

- Mais respeito com a sua mulher, Geraldo. Você me contou tudo isso. Um dia, aqui mesmo no Beira. Tinha bebido e resolveu chorar as mágoas. Estava chateado com sua mulher por algum motivo.

- Nossa mulher, meu caro. Sócio. Vai usar ela hoje? Depois lava e me devolve.

- A mulher que você vai abandonar pra ir viver na praia, meu amigo. Deixe de ser hipócrita, Geraldo. Tenha mais respeito por ela e por você mesmo.

- Vagabunda.

- Você quer se separar dela, Geraldo. Não liga mais pra ela. Que importância tem a nossa história? Nenhuma. Foi há mais de vinte anos, amigo. Gilza sempre te respeitou.

- Não vou mais me separar. Ela é minha mulher, casou-se comigo. Não vou te entregar de bandeja como você pretendia.

- Virou cristão? O mártir? Quer virar mártir para humilhar a Gilza. Vai jogar tudo o que conversamos na cara dela pra ela se sentir culpada. Aí encontra uma razão para continuar casado, infernizando a vida da mulher.

- É isso mesmo. Não vou dar mais sossego pra ela.

- E se considera cheio de razão. Isso é covardia, Geraldo. Seja homem e diga a ela os verdadeiros motivos da sua decisão. Não me use. Diga que você é um cara inseguro e que tem medo de ficar ao lado dela.

- Você me traiu, ela me traiu. Vocês dois me traíram. Não quero mais saber de você. Não me procure mais. Passe bem, Jair.

- Geraldo, venha cá. Geraldo! Senta aí. Não seja infantil, cara. Vamos acabar a nossa conversa. Venha cá, Geraldo! Porra, é malucão esse meu amigo. Cícero, me traz mais uma Beira gelada. Que merda!

Geraldo foi embora. Depois de pedir mais uma cerveja, Jair ficou meio desconcertado. Olhou pra um lado, olhou pra outro e me achou. Como a ansiar que eu tivesse ouvido a conversa deles, ele fez cara de “me diga aí, amigo, o que você pensa de tudo isso?”. Para mim, era um pedido de ajuda.

Mas, constrangido, eu desviei o olhar e o deixei sozinho procurando outro interlocutor. Eu não saberia o que dizer. Imagina se o Jair me perguntasse: “você acha que eu devo me casar com a mulher do meu amigo?” Eu definitivamente não tinha opinião.

Chamei o garçom e risquei no ar o pedido da conta. Alguns minutos depois, paguei e me mandei. Estava louco pra chegar em casa e escrever sobre as loucuras que se entreouve em mesa de bar.

Fim