Por Joaquim São Pedro
O casamento de Rodolfo e Dorothéa acabou depois de quinze anos. Sem chance de volta. Havia muito eles ensaiavam a separação, mas foram adiando. Talvez a razão maior para continuarem sob o mesmo teto fosse a filha de 13 anos, com quem o pai se dava muito bem.
Mas quando Rodolfo conheceu Regina Célia, encontrou também o motivo que precisava para tomar novo rumo. Levou poucas coisas, só roupas e objetos pessoais. Mas o que mais queria, ele não conseguiu levar: a filha. A vontade de Paulinha era morar com o pai, mas ela foi vencida pela chantagem da mãe, que ameaçou se matar se a filha fosse viver com a madrasta. Regina Célia era colega de trabalho de Rodolfo. Ele já estava na construtora quando a moça, recém-formada, foi contratada. A empatia foi imediata. Da troca de olhares nas reuniões até a primeira oportunidade de ficarem sozinhos, depois de um jantar em que ele ofereceu carona e ela aceitou, foram três meses. Daí em diante os dois se encontraram com frequência cada vez maior, até resolverem alugar uma casa juntos.
Dorothéa se sentiu a última das mulheres. Da depressão ao sentimento de vingança, foram seis meses. Passada a fase do isolamento, ela foi à euforia. Assim, passou a procurar o ex-marido por qualquer coisa. Regina era muito paciente e se recusava a entrar no jogo. Logo entendeu que Dorothéa queria apenas desestabilizar seu casamento, numa espécie de troco pelo fato de ela ter provocado a separação do casal.
- Alô, Rodolfo?
- Oi, Dorothéa!
- Você sempre de mau humor?
- Não, Dorothéa. Fico assim quando você me liga.
- Grosso!
- Por favor, diga logo o que você quer.
- Falando nesse tom grosseiro, era melhor me mandar à merda, meu querido.
- É tudo o que você quer para começar a se lamentar, me chamar de canalha, me jogar na cara que abandonei o nosso lar por causa de uma vagabunda e começar a chorar. Como você é previsível, Dorothéa.
- Você antes me chamava de Doró.
- Antes, Dorothéa. Agora chamo pelo nome, porque as circunstâncias mudaram. Quero muita formalidade entre nós. É melhor. Sem intimidade, vai.
- Porque você quer, seu rancoroso!
- Rancoroso? Eu? Você nem conversou comigo antes de ir à Justiça por causa do apartamento. Você me tirou tudo e agora quer que eu a chame de Doró. Como se nada tivesse acontecido? Ora, me poupe. Eu não sei se você é cínica ou debochada.
- Mas eu pensei que você fosse passar o apartamento para o nome daquela vagabunda. Eu precisava pensar no nosso futuro, na nossa filha.
- Por favor, Dorothéa. Nosso futuro? Nossa quem? Você nem queria ficar com a Paulinha. Queria que ela fosse criada pela sua irmã.
- Mentira. A sua mulherzinha é que queria tomar a minha filha.
- E queria mesmo. Elas se dão muito bem. Não fossem as nossas viagens a trabalho, minha filha moraria comigo.
- Mas ela ficou comigo, seu bobo.
- Mas o juiz teve bom senso quando proibiu que você entregasse nossa filha para a sua irmã.
- Hummm.
- Mais a mais, respeite quem não tem nada a ver com as suas paranoias. A Regina nunca teve a intenção de tirar o apartamento da nossa filha.
- Foi por causa dela que eu fui à Justiça. Para garantir o bem da nossa menina.
- Você só foi à Justiça para me infernizar. Queria me tirar o sossego. Mas vamos encerrar a conversa. O que você quer?
- Eu só queria dizer mais uma coisa: você saiu de casa porque quis.
- Foi isso mesmo, saí porque quis. Fiz o que achei mais honesto pra nós dois.
- Honesto? Você fica se arvorando de honesto para que eu me sinta uma ladra?
- O que você sente ou deixa de sentir por eu ter saído não me interessa mais, Dorothéa. Já conversamos sobre isso. Diga o que você quer, senão vou desligar o telefone.
- Só mais uma coisa: quando eu digo que você saiu de casa porque quis é porque pode voltar quando quiser. E veja que eu estou me humilhando pra dizer isso.
- Você está casada, mulher...
Para tentar amenizar sua frustração, Dorothéa havia se casado com um ex-namorado da adolescência que reencontrou num desses bailes dos Anos 80. Mas ela nunca escondeu de ninguém que, se Rodolfo estalasse o dedo, ela mandaria o marido embora e depois levantaria o lençol para que o ex-marido se esquentasse.
- Você entendeu, Rodolfo. Sou sua quando você quiser.
- Eu poderia ir ao seu marido e dizer isso que você está me dizendo.
- E depois assumiria suas palavras e as consequências delas?
- Como assim, Dorothéa?
- Vá, diga a ele que eu deixei as portas abertas pra você entrar. Aí, ele vai embora, me deixa sozinha e você volta com a sua mala cheia de amor pra me dar.
- Eu não acredito no que estou ouvindo, mulher.
- Pode acreditar, meu amor. E digo mais: você é o homem da minha vida. É o que eu sinto e pronto. Não minto pra mim e nem pra você. Se o Cléber me perguntar, eu digo. É porque ele nunca me perguntou se eu ainda gosto de você. Ele me aceita como eu sou.
- Tire isso da cabeça, Dorothéa. Não temos mais nada a ver. Nós nos casamos muito cedo. Crescemos, amadurecemos e nossas diferenças apareceram. Nós nos tornamos dois estranhos.
- É porque os meus peitos caíram? Posso mandar o médico levantar.
- Não diga bobagem, Dorothéa. Isso é chantagem.
- É o que então? Celulite? Mando o médico tirar.
- Já expliquei inúmeras vezes, Dorothéa. Acabou, apagou a chama...
- Isso mesmo, acabou a excitação. Não tenho mais aqueles peitinhos e aquela bundinha empinada. Estou gorda. Eu faço regime. Peço para o médico...
- Você deveria pedir aos médicos um remédio pra sua paranoia. Por favor, diga o que você quer. Se não, vou desligar.
Ele se impacientava, com uma disposição cada vez menor para ouvi-la. Daquela vez, porém, a ex-mulher tinha algo no mínimo curioso a resolver com ele:
- O que faço com o nosso álbum?
O matrimônio pode não ser, mas o álbum de casamento é para sempre. Alguns casais brigam pelo direito de levá-lo. O registro de um momento único. Não era o caso de Rodolfo e Dorothéa. Estava claro que, pouco preocupada com o álbum de retrato, ela procurava mesmo era um pretexto para tirar o ex-marido do sério.
- Que álbum, Dorothéa?
- Que álbum? Que álbum? O nosso álbum de casamento, claro.
- Não sei. Guarde com você.
- Guardo comigo para matar a saudade de vez em quando? Ou para mostrar ao meu marido quando nós estivermos falando do passado?
- Olha, Dorothéa. Cada vez que conversamos, eu me surpreendo. Você quer me infernizar, não é? Então, me diga: qual é a sua sugestão? O que fazer com o álbum de casamento?
- Sei lá. Mando entregar na sua casa?
- Nem pensar.
- Por quê? A bruaca vai ficar com ciúme?
- Mais respeito, Dorothéa. Não tem por que mandar esse álbum lá pra casa. Não nos diz respeito.
- Mas diz a nós dois.
- Eu concordo. Mas não estou interessado nele.
- Então vamos decidir o que fazer com ele, meu amor.
- Acho que você deveria jogar fora.
- Como? Enlouqueceu? É a história de uma vida. Foram quinze anos de casamento. É a nossa história.
- E a quem interessa a nossa história, Dorothéa?
- Aos nossos parentes e amigos... Você está rindo?
Na medida em que percebia que a intenção da ex-mulher era desestabilizá-lo, Rodolfo se perguntava por que ainda atendia ao telefone quando ela ligava e por que ainda conversava com ela.
- Só rindo, Dorothéa. Os meus parentes odeiam você. Os seus também me odeiam. Meus amigos nem lembram que você existe. Não levo o assunto “Dorothéa” para as minhas rodas de samba e para o meu futebol.
- Samba? Sempre agarrado àquelas mulatas bundudas, enfiadas em fio dental, seu safado.
- Qual é o problema das mulatas, Dorothéa?
- Nada. Nada. Se quiser, eu mando o médico colocar em mim uma bunda de mulata.
- Santo Deus! Esse seu racismo ainda vai encrencar você um dia, Dorothéa. Tome cuidado.
- Estou com ciúme, só isso. Não tenho nada contra as mulatas.
- Por favor!
- O que fazer com o álbum, Rodolfo?
- Jogue fora e pronto.
- Não. Não jogo. Você gastou quase todo o seu salário pra pagar. Você era pobre, ganhava pouco.
- Pobre não, Dorothéa. Eu começava a minha vida profissional. Ganhava pouco, mas estava só no início da minha carreira. E você, está tão preocupada com o meu dinheiro?
- Sempre estive, meu bem. Se eu não fosse uma mulher austera, não teríamos comprado este...
- Apartamento? Nós? Fui eu que comprei. Meu pai me deixou uma herança e eu dei de entrada. Aliás, mais de 50% de entrada. O resto eu paguei com o meu trabalho.
- Mas eu apoiei você o tempo todo. Por trás de um grande homem...
- Você é muito cara de pau, mulher. Queria poder gravar essa nossa conversa para anexar ao processo de resgate do meu apartamento. Mas ele vai voltar pra mim sem precisar que eu difame você na frente do juiz. Veja como eu sou legal.
- Nunca. Só saio daqui morta.
- Não seja cínica, Dorothéa. Se a Justiça decidir, você e o seu marido parasita saem na hora.
- Volte e o Cléber vai embora... Você ainda está aí?
- Estou, Dorothéa. Você fala tanta besteira que às vezes eu sou obrigado a ficar mudo.
- O que vamos fazer com o álbum de casamento?
- Acho que você deveria queimar.
- Não jogo fora, nem dou ou queimo. É a lembrança de um momento que eu vivi. Fui muito feliz no nosso casamento.
- Concordo. Se você viveu. Se foi feliz, então guarde o álbum.
- E você também viveu...
- Não nego, Dorothéa. Mas quero esquecer que vivi e queria que você se livrasse desse álbum.
- Não conseguirá, meu amor. Você vai se lembrar de mim para sempre. Não são vocês machistas que ficam dizendo nas suas rodas de cerveja que ex-mulher é para sempre?
- Machista? Eu? Nunca disse isso...
- Mas pensou, meu amorzinho.
- Por favor, Dorothéa. Passei o meu almoço no telefone com você. O prato está intacto na minha frente. Não vou mais comer...
- Vem almoçar aqui em casa, preparo o bife que você gosta.
- Vou fingir que não ouvi, Dorothéa.
- O que fazer com o nosso álbum de casamento?
- Dê de presente para a sua mãe. Aquela bruxa me odeia mesmo.
- Você gostaria que a minha mãe morresse, não é?
- Gostaria. Nem ia ligar!
- Monstro!
A sogra é um caso à parte nos casamentos. Pode representar a segunda mãe para ele ou para ela. Mas também pode transformar a vida do casal num inferno.
Pelo jeito, a sogra de Rodolfo não teve qualquer responsabilidade no fim do casamento da filha. Depois de ofender a mãe de sua ex-mulher, ele se arrependeu:
- Desculpe. Não chore. Eu não deveria ter dito. Saiu sem querer. Eu sei que sua mãe não gosta muito de mim, mas isso passou.
- Mas disse. Ela nunca prejudicou você. Já até ficou contra mim pra te dar razão, seu ingrato.
- Desculpe, Dorothéa.
- Não desculpo. Minha mãe é uma pessoa respeitável. Sempre torceu para que o nosso casamento desse certo.
- OK. Eu sei. Eu tenho o maior respeito pela sua mãe.
- Você é um ingrato. Quer jogar pra cima dela a culpa do nosso fracasso.
- Não quero nada, Dorothéa. Já me desculpei.
- O que nós vamos fazer com o álbum de casamento? E não diga o que você está pensando. Você está rindo?
- Só rindo, Doró...
- Você me chamou de Doró...
- OK. Chamei. O que você quer que eu faça pra gente encerrar essa conversa?
- Dê uma solução para o álbum, que você insistiu tanto em fazer. Ao invés de álbum, poderíamos ter ido passar a lua de mel em Buenos Aires.
- OK. Mas eu queria o álbum. Eu estava apaixonado por você. Naquele momento era mais importante que uma viagem à Argentina, agora não é mais. Não nos amamos mais...
- Você não me ama mais.
- OK. Eu não amo. Agora, o que você vai fazer com o álbum eu não sei.
- Sabe sim. E está doidinho para mandar eu...
- Por favor, Dorothéa. Faça o seguinte: mande pra minha casa. Eu vou guardar. No dia que você quiser, mando entregar de volta.
- Nem pensar. Pra depois você e aquela lambisgoia ficarem rindo de mim...Já estou vendo essa aí folheando o álbum e comentando a meu respeito: como ela era magra, agora está enorme de gorda. Os dois vão rir de se jogar no chão.
- Ninguém vai caçoar de você, Dorothéa. Eu vou guardar o álbum num lugar seguro. Deixo no meu escritório e tranco com a chave, pronto. Ela não entra lá. Minha mulher é muito discreta. No dia em que você quiser, pode pedir de volta. Eu entrego.
- Não mando. Quando vocês brigarem, aquela mulher vai rasgar o meu álbum e jogar na sua cara.
- Então, se você não quer jogar fora e nem me entregar, pode guardar.
- Mas o Cléber pode se aborrecer...
- Ah, entendi. Ele pode não gostar e você me procura pra dar um jeito no álbum.
- Porque o problema é meu e seu e não meu e do Cléber.
- O que me cabe nesse latifúndio, minha querida, eu passo pra você de papel passado. Faça do álbum o que achar melhor. Só me comunique o que resolveu fazer e terá todo o meu apoio. Integralmente.
- Engraçadinho. Diz isso porque deixou de ser o homem sensível que eu conheci. Não fala comigo mais com doçura na voz. Que me deixava toda excitada.
- Por favor, Dorothéa. Eu já estou chegando no escritório e você não tomou a decisão.
- A decisão é sua, meu amor.
- Mande lá pra casa, então.
- Venha buscar aqui em casa.
- Tudo bem, Dorothéa. Quando?
- Sexta à noite. O Cléber viaja de manhã.
- Você é louca...
- Por você, meu homem...
- Passo aí sexta-feira à noite, então.
- Vou preparar o salmão que você... Desligou. É um grosso. Nem se despediu. É um doce e adorável grosso. Vou preparar o salmão que ele adora e comprar o vinho que o deixa excitado e doidinho por mim. Meu querido e eterno álbum de casamento, só mesmo te dando um beijo...
Fim