segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Ofereço-te a minha mulher

            Por: Joaquim São Pedro

Conheci Geraldo e Jair numa mesa do Beirute, o bar mais célebre de Brasília, uma cidade a que ainda falta aos lugares a impregnação de história e histórias. O Beirute é uma exceção. Ali já se bebeu, falou-se e já se fez tanto que o ambiente está denso de emanações. Um observador mais atento ao que chamam de mundo espiritual, ou com grau etílico exacerbado, pode até flagrar conversas de há muitos anos flutuando na mesa ao lado.

Não é o caso da história que passo a contar. Geraldo e Jair não sabem que eu existo. Digo, seguramente me viram ali, mas eu era mais um vulto naquela noite em que os vi conversar numa das mesas do Bar. O da 109 Sul, deixo bem claro, não a filial da Asa Norte.

Pelo que pude perceber, eles se conheceram naquele ambiente e ali consolidaram a amizade. Muito provavelmente, Geraldo tinha quase o dobro da idade de Jair. O primeiro viera de Minas nos primeiros anos da capital.

O outro, um paulista. Vivia na cidade havia menos tempo, uns 15 anos, segundo deduzi por um comentário. Apesar de parecerem íntimos, o clima do encontro era solene, pelo menos da parte de Geraldo.

- Como vai, Jair?

- Tudo bem, Gê? E você?

- Tudo em ordem. Mas o que aconteceu, meu amigo. Você me ligou meio aflito, parecia ansioso. Algum problema?

- Não... Sim... Quer dizer, não tem problema, mas tem.

- Êpa, o amigo tá que é uma confusão só. Quer tomar uma cerveja pra relaxar? To achando você muito tenso...Cícero, desce mais uma!

- Tá rindo, seu malandro? É por que você não chegou ainda os 65.

- To rindo do seu jeito confuso, Geraldo. Que dizer alguma coisa?

- Preciso te falar sim, Jair.

- Diga, então, meu caro.

- É um assunto delicado. Passei os últimos dias pensando nisso. Foi muito difícil tomar uma decisão.

- O meu amigo vai mudar o nome para Confusino. Ou, Confusildo?

- Desculpe, Jairzinho. To mesmo muito atrapalhado das ideias. Mas, to decidido também.

- Pô, agora você me pirou, cara. Confuso, mas decidido. Como é isso?

- É coisa da idade, amigo. Renúncia!

Geraldo rodeava, escolhendo as palavras. Parecia inclinado a fazer ao amigo, como de fato ocorreu, uma proposta incomum. O que ele disse representava abdicar da própria felicidade.

O homem havia chegado à conclusão de que àquela altura de sua vida em breve se tornaria um estorvo na vida da esposa. E que, para o bem-estar dela, o melhor seria se separar, viver na solidão.

Geraldo era bem casado. Isso ficou claro durante a conversa. E ele estava prestes a dizer ao amigo que, ainda assim, amando a mulher como nunca, pediria o divórcio. Incrédulo, apurei os ouvidos para seguir a conversa enquanto punha o olhar do mulherio que circulava, de modo a disfarçar minha bisbilhotice.

- Renúncia? Como assim? Que eu saiba você não é político pra renunciar.

- Não são apenas os políticos que renunciam, meu caro. Nós, mortais, renunciamos igualmente. Quando nos casamos, renunciamos à libertinagem. Ou não?

- Não sei, nunca fui casado.

- Mas é, meu caro. O homem vive renunciado. Não preciso falar dos contratualistas, como de Rousseau, que você estudou. Renunciar à liberdade, amigo, em favor da proteção.

- Ok, professor. Mas qual é o problema? Até agora só vi rodeios e filosofia. Já estamos indo para a segunda cerveja e nada. Acho que vamos tomar um porre e você não vai se explicar.

- É verdade, to mesmo girando em círculo, né? Pede uma bem gelada, vai! O Beirute é o bar por excelência de Brasília, parece que a aqui a cerveja desce melhor.

- Com certeza. Mas não vamos ficar aqui elogiando o Beirute pra ver se ganhamos cerveja de graça, né? Vamos ao que interessa?

- Tim-Tim! Gelada, heim!

- Tim-Tim. Sempre. Ufa!

Às vezes a bebida enche o homem de razão. Ele fica valente, romântico ou dono situação. As decisões até fluem. Mas na hora de anunciar sua decisão, se é que era uma decisão, Geraldo (aqui o trato com a amizade de um companheiro de mesa) vacilou. Ainda estava faltando bebida ou coragem? Seria isso mesmo o que ele queria? Parecia que sim.

A dificuldade era botar pra fora. Mas isso eu só entenderia mais à frente. É que Jair estava diretamente envolvido. De maneira surpreendente, Geraldo decidiu o seu destino, o da mulher e poderia estar prestes a informar ao próprio amigo que decidira também o destino dele. Sem consultá-lo:

- Como eu ia dizendo...

- Você não ia dizendo nada, Geraldo.

- Mas agora vou dizer.

- Então manda logo, sujeito.

- Bem, é um assunto muito delicado. Primeiro preciso dizer que quero a sua ajuda. Eu te considero o meu melhor amigo.

- Obrigado, Gê.

- Bom, meu amigo Jair. Vou te pedir um favor...

- Já começou a me enrolar de novo, sujeito. Entra logo no assunto.

- Tá bom. Vamos lá. Mas me deixe fazer um preâmbulo.

- Preâmbulo é muito bom. Manda o seu preâmbulo. Cícero, traga mais uma...

- Bem. Sou casado...

Casamentos só acabam se faltar amor. O resto se arranja. Não era o caso do casamento de Geraldo. Na conversa com seu amigo, ele deixava cada vez mais claro que amava sua mulher. Mas ele estava prestes a anunciar ao amigo, porém, que renunciaria ao amor.

- Com a Gilza. Já sei, há pelo menos 20 anos, meu amigo Geraldo.

- Com a Gilza. O amor da minha vida.

- Isso também, eu já sei, Gê. Gilza é o amor da sua vida.

- Amo minha mulher, Jairzinho, mas vou me separar dela.

- Enlouqueceu! Hoje, por acaso, é o dia da contradição? Primeiro você diz que está confuso, mas decidido. Agora diz que ama a Gilza, mas que vai se separar dela. Ela pediu o divórcio, então? Ela não te quer mais?

- Não é isso, homem. Ela nem imagina que eu tomei a decisão de me separar. Pelo menos ainda não conversei com ela. Resolvi que primeiro conversaria com você.

Geraldo começava a revelar que se separaria numa decisão unilateral. Ainda que refletida e amadurecida. Não acreditei. Refletida? Amadurecida? Parecia mais um caso de fraqueza. Covardia.

- O meu amigo Geraldo decidiu o destino da mulher dele sem conversar com ela. Pode isso?

- É mais ou menos isso, Jair.

- Tá louco? Só pode ser.

- De amor pela minha mulher, Jair. Só tomei a minha decisão de abandoná-la porque a amo muito.

- E por estar louco de paixão pela própria mulher, quer se separar dela?

- É, meu caro. Em respeito ao que sinto por ela.

- Geraldo, vamos conversar direitinho. Conta o que está acontecendo com você.

- Posso pedir mais uma gelada? Cícero!

- Agora, me fala. Você está doente?

- Não, Jair. Quer dizer, to.

- Definitivamente, meu amigo, hoje você está fora do seu juízo. Agora diz que está e que não está doente.

- Não estou doente, pô. Não tenho um câncer! Minha doença é a velhice. É isso que estou tentando te dizer. A Gilza tem 30 anos menos que eu. Não sou mais um amante fogoso, cheio de vitalidade, capaz de satisfazer plenamente uma mulher tão nova, irradiando saúde.

Enquanto destroçava um quibe assado e digeria aquela história amalucada, refleti um pouco sobre a excessiva preocupação do homem ocidental com a sua virilidade.

Seria um exercício quase inimaginável de humildade se ele chegasse para a mulher amada e dissesse: “meu amor, não estou dando conta mais. Peço desculpas. Minhas energias se esgotaram. Vamos pensar juntos numa solução?”. Com certeza, ela diria: vamos a um médico. Simples assim.

- Bem, e daí, Geraldo?

- E daí, que Gilza é uma mulher que tem uma vitalidade enorme. É jovem, bonita e adora fazer sexo.

- Tudo bem, mas e daí, Geraldo?

- Ela precisa de um cara mais vigoroso, que a acompanhe e a satisfaça. Que a leve para dançar, para festas, para o motel, para viajar.

- Geraldo, aonde você quer chegar?

- Na minha decisão de me separar, porra. Tenho medo...

- Medo? Meu amigo, eu posso te dizer uma coisinha? Ou melhor, te fazer uma perguntinha: ela tem reclamado do seu desempenho, da sua indisposição para dançar, para passear, para ir ao motel?

- Não tem. Aliás, ela não tem reclamado de nada do casamento.

- Então, sujeito. Se a mulher não reclama com você, do que é que você tem medo?

- Tenho medo de que ela venha um dia a reclamar. E que eu me sinta um inútil. Prefiro sair da vida dela antes que isso aconteça.

- Geraldo, meu caro amigo, meu irmão mais velho, vou te dizer mais uma coisa.

           - Fala, meu irmão.

- Você precisa parar com isso. Não tome decisões pelos outros. Faça uma coisa: se não tá se sentindo legal, vai viajar. Passe uns dias fora. Fale com a Gilza: diga assim: meu amor, eu vou realizar um sonho de dar um giro pela Europa. É um sonho antigo, que eu quero realizar. Ela vai compreender. Aí, quando você voltar, conversa com ela sobre tudo isso.

Diante do que ouvia e depois de mais um gole de cerveja, arrisquei uma metáfora: casamentos quase falidos podem pedir concordata, como um tempo, ou um empréstimo para se capitalizar, como uma viagem, uma plástica, uma terapia de casal.

Daí em diante é assim: ou um sente falta do outro e a relação apruma e retoma o ritmo ou vai à bancarrota de vez.

- Será que ela vai estranhar, Jair? Eu sair sozinho por aí. Será que vai pensar que eu tenho algum problema?

- Pode até estranhar, mas se você for sincero, ela até vai te dar uma força. A Gilza é uma pessoa muito generosa.

- Você conhece bem a minha mulher, Jair?

- Ora, Geraldo. Eu a conheço mais ou menos no mesmo tempo que você conhece. Esqueceu-se de que eu apresentei vocês dois no samba? Faz vinte anos, mas eu me lembro bem. A gente estava no samba, ela me apresentou uma amiga e eu te puxei pra nossa mesa. Vocês dois começaram a conversar e logo se pegaram. Dalí mesmo vocês partiram para o compromisso sério.

- É verdade, amigo! Você nos apresentou. Já tinha me esquecido disso.

- Então, eu a conheço também. E sei que ela está feliz ao seu lado.

- Mas eu não estou feliz porque sei que não a faço completamente feliz.

- Ora, que bobagem. Ela é uma mulher adulta e pode fazer as suas escolhas. Gilza tem capacidade de avaliar se está feliz ou não e se é hora ou não de ir embora.

- Eu vou me separa dela, Jair.

- Por que, Geraldo? Até agora você não me deu uma razão consistente para essa decisão, que eu acho idiota. Me desculpe falar assim, amigo. Mas é o que estou sentindo.

- Eu sei que é idiota, Jair. Mas está decidido. Me separo da Gilza e me mudo para uma praia. Vou arrumar lugar onde eu possa ver o mar todos os dias. Não vou mais ter mulher nenhuma por perto. Vou me abster definitivamente de fazer sexo. Quero viver só. Morrer só.

Pobre Geraldo. E eu nem o conheço e nunca mais o vi. Mas optar pela solidão, por que se convenceu de que não tinha mais condições de continuar casado com a mulher que ama, era muito triste.

A solidão pode acontecer pra qualquer um, mas não deve ser nunca algo a que um ser humano se dê ao luxo. Uma “opção” assim definitivamente cobra um preço alto. O certo é que aquele homem estava simplesmente fugindo de sua felicidade.

- Ah, não acredito que estou ouvindo isso, Geraldo. Não faz sentido. Você está com alguma doença, meu amigo? Pode se abrir comigo. Está desenganado pelos médicos?

- Não, só estou velho, rabugento, sem saco pra nada. Não quero ser um egoísta com ela.

- Mas o que você está sendo agora, Geraldo? O mais egoísta dos egoístas. Acaba de decidir o destino da sua mulher sem discutir com ela. Sem dar a ela qualquer alternativa

- Sei, mas vou me separar assim mesmo. É melhor pra ela.

- Bem, você vai se separar. Vai chegar para a Gilza e dizer: meu amor, eu te amo, mas broxei. To saindo fora, porque vou me mudar sozinho para um praia. É isso, Geraldo? É o que você vai jogar na cara da sua mulher? Depois de vinte anos de casado?

- Tenho alternativa?

- Ora, camarada. Não tem alternativa porque não tem problema algum pra ser resolvido. Você está inseguro e é natural. Está sentindo-se velho e é natural. Mas precisa encarar os seus sentimentos, o seu momento de instabilidade, e pedir ajudar. Você precisa ter coragem de discutir o seu problema com a Gilza. E não fugir como um covarde, com esse discurso de que está fazendo o melhor pra ela.

- Não vou discutir nada. Só vou dizer que estou saindo da vida dela.

- Bem, Geraldo, você é teimoso, insiste na sua teimosia e vai sofrer. Acho que você está errado e que vai cometer suicídio. Mas se decidiu...

- Decidi, amigo. E decidi mais.

- O que você decidiu mais?

- Que vou aproximar vocês dois.

Ao ouvir aquilo, tive vontade, é claro, muita vontade de rir. Me contive e o que fiz foi aguçar ainda mais os nervos auditivos, certo de que viria muita novidade pela frente. Geraldo queria unir a mulher amada ao amigo. Algo para dar errado sem sombra de dúvida.

- Como assim, Geraldo?

- Você está solteiro, tem 45 anos. Dentro de algumas horas ela vai ficar solteira, perto dos 40. Vocês serão livres. Vocês regulam na idade. São duas pessoas que gostam das mesmas coisas. E vai me dizer que não acha a Gilza uma mulher atraente, sensual, bonita, gostosona?

- Geraldo, definitivamente, você enlouqueceu. Perdeu o juízo e a razão. Ateu eu sei que você é. Por isso nem vou dizer que perdeu a fé. Mas que perdeu o rumo, isso tá na cara.

- Tudo bem, Jair. Mas você concorda que eu aproxime vocês dois?

- Ficou louco! Não está entendendo nada. Desde que nós chegamos aqui, você só disse bobagens. Agora que me envolver. Faça-me o favor, Geraldo...

- Me separo dela hoje e digo que você se interessa por ela, que a acha atraente e coisa e tal. Depois da minha separação, nós dois esfriamos a amizade e nos distanciamos. Ela vai ficar só. Ai você se aproxima dela pra consolar. Tenho certeza de que ela vai gostar de você.

- Geraldo, eu e a Gilza somos amigos há mais de 20 anos. O que tínhamos de sentir um pelo outro já sentimos. Qualquer outra forma de relacionamento com ela, já morreu, meu caro.

No intervalo Jair foi ao banheiro. Enquanto isso, eu ganhei fôlego para minhas elucubrações: um amigo faz por outro o que não faz por um parente. Jair aceitaria uma aproximação com a mulher do amigo, por iniciativa do próprio? Ele voltou e a conversa continuou.

- Você que pensa, Jairzinho. Morreu não, adormeceu. É só despertar que logo vocês ficam juntinhos. São novos, cheios de vida.

- Geraldo, eu vou te contar uma coisa?

- Depois, primeiro deixa em falar. Um dia desses estávamos eu e ela na cama. Aí eu perguntei com qual dos meus amigos ela transaria. Sabe o que ela me respondeu?

- Não, Geraldo!

- Você, meu caro. Você já sabia que ela tem uma queda por você? É só aproveitar. Vou embora da vida dela...

- Geraldo, eu e a Gilza já namoramos. Tivemos um caso antes de ela te conhecer. Quando eu apresentei vocês dois, eu já havia me separado dela. Isso foi há muito tempo. Depois vocês casaram. Passou, meu caro. Para mim, ela é a mulher do meu melhor amigo, nem a vejo como uma ex-namorada.

Caramba, eu exclamei com os meus botões. Então, o Jair já teve um caso com a mulher do Geraldo. Isso é traição. Mas foi antes de Geraldo se casar com Gilza. E agora? O mais estranho foi a reação de Geraldo. Coisa de louco:

- Então vocês já se conheciam? E já haviam transado quando você me apresentou a ela?!

- Sim.

- Que louco!

- Vocês começaram a sair e, daí em diante, eu e ela não nos vimos mais. Até que passei a reencontrá-la apenas na sua companhia. Nunca mais nos tocamos. Ela se apaixonou por você, Geraldo.

- Canalha!

- O que é isso, amigo? Não diga isso da sua mulher.

- Você é um canalha. Gilza é uma vagabunda.

- Calma, rapaz. Nós estamos conversando. Eu só estou te contando o que aconteceu, para te dar uma prova da nossa amizade e do amor que ela sente por você. Gilza teve muita personalidade quando te assumiu e esqueceu o resto.

- Vagabunda!

- Geraldo! Não diga isso, não seja leviano. Ela gosta muito de você e nem precisa provar nada a ninguém.

- Vigarista. Ela te conta na cama o quanto ela gosta de mim? Vocês acabam de trepar, acendem um cigarrinho e ela diz: com você é bom, Jairzinho, mas com o Geraldinho Corninho é muito melhor. É assim que ela diz? Me conta!

- Vou-me embora, Geraldo. Se você não se acalmar e baixar o tom de voz, eu vou-me embora. O pessoal daqui do Beirute me conhece e eu não estou a fim de armar nenhum barraco.

- Barraqueira!

- Você está descompensado. Para com isso, cara.

- Descompensado? Eu sou é corno. Um corno de quase setenta anos. E você me diz que estou descompensado?

- Geraldo, há alguns minutos você queria me entregando a sua mulher de bandeja. Agora que te contei uma passagem das nossas vidas, que falei da grandeza do gesto dela, de ficar contigo, você me esculacha e ofende a sua mulher? Que porra é essa, meu?

- Quem disse que ela te largou pra ficar só comigo?

- Ora, Geraldo. Foi decisão dela. Gilza casou contigo. Nunca mais nos encontramos a sós. Eu só a vi nesse tempo todo na sua companhia. E feliz, muito feliz.

- Por causa do meu dinheiro...

- Enlouqueceu de vez. Geraldo, Gilza pode ser tudo...

- Puta...

- Não diga isso, cara. Ela pode ser tudo, menos adúltera.

- Se dormir com você não é adultério, é o que, então, Jair?

- Vocês não eram casados. Nós nos conhecíamos há mais tempo. Tivemos um caso que terminou antes de ela te conhecer e resolver que você era o homem da vida dela.

- Entrei na vida dela quando a conheci. Fui de cabeça, com fé e coragem. Ela não podia ter feito isso comigo.

- Não fez, Geraldo. Quando você conheceu a Gilza ainda tinha aquele caso mal resolvido com a sua ex-mulher. Gilza aceitou tudo e te deu o tempo que você quis. Ela nunca te cobrou nada. A coisa ficou séria quando você se livrou da sua ex-mulher e a Gilza entendeu que te amava.

- Ela te contou isso na cama, aquela vagabunda?

- Mais respeito com a sua mulher, Geraldo. Você me contou tudo isso. Um dia, aqui mesmo no Beira. Tinha bebido e resolveu chorar as mágoas. Estava chateado com sua mulher por algum motivo.

- Nossa mulher, meu caro. Sócio. Vai usar ela hoje? Depois lava e me devolve.

- A mulher que você vai abandonar pra ir viver na praia, meu amigo. Deixe de ser hipócrita, Geraldo. Tenha mais respeito por ela e por você mesmo.

- Vagabunda.

- Você quer se separar dela, Geraldo. Não liga mais pra ela. Que importância tem a nossa história? Nenhuma. Foi há mais de vinte anos, amigo. Gilza sempre te respeitou.

- Não vou mais me separar. Ela é minha mulher, casou-se comigo. Não vou te entregar de bandeja como você pretendia.

- Virou cristão? O mártir? Quer virar mártir para humilhar a Gilza. Vai jogar tudo o que conversamos na cara dela pra ela se sentir culpada. Aí encontra uma razão para continuar casado, infernizando a vida da mulher.

- É isso mesmo. Não vou dar mais sossego pra ela.

- E se considera cheio de razão. Isso é covardia, Geraldo. Seja homem e diga a ela os verdadeiros motivos da sua decisão. Não me use. Diga que você é um cara inseguro e que tem medo de ficar ao lado dela.

- Você me traiu, ela me traiu. Vocês dois me traíram. Não quero mais saber de você. Não me procure mais. Passe bem, Jair.

- Geraldo, venha cá. Geraldo! Senta aí. Não seja infantil, cara. Vamos acabar a nossa conversa. Venha cá, Geraldo! Porra, é malucão esse meu amigo. Cícero, me traz mais uma Beira gelada. Que merda!

Geraldo foi embora. Depois de pedir mais uma cerveja, Jair ficou meio desconcertado. Olhou pra um lado, olhou pra outro e me achou. Como a ansiar que eu tivesse ouvido a conversa deles, ele fez cara de “me diga aí, amigo, o que você pensa de tudo isso?”. Para mim, era um pedido de ajuda.

Mas, constrangido, eu desviei o olhar e o deixei sozinho procurando outro interlocutor. Eu não saberia o que dizer. Imagina se o Jair me perguntasse: “você acha que eu devo me casar com a mulher do meu amigo?” Eu definitivamente não tinha opinião.

Chamei o garçom e risquei no ar o pedido da conta. Alguns minutos depois, paguei e me mandei. Estava louco pra chegar em casa e escrever sobre as loucuras que se entreouve em mesa de bar.

Fim


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A calcinha da Izildinha



Por Joaquim São Pedro



A calcinha da Izildinha estava pendurada na porta do box do banheiro e quando bati o olho nela, não tive saída: eu me apaixonei. Estava hipnotizado quando fechei a porta atrás de mim e até me esqueci momentaneamente do que tinha ido ali fazer: xixi, obviamente eu me lembrei depois.

Fiquei um tempo olhando, encantado, para a peça íntima, de cor branca com delicadas flores vermelhas. Linda, pelo tamanho, dizia-me que a sua dona era uma mulher pequena, magra e, feeling, muito delicada.

Eu olhava algo muito pessoal de alguém que eu nem conhecia. Foi meu primeiro e inesquecível contato, ainda que indireto, com Izildinha. Conhecia só o irmão dela, o Caio.

Nós nos falávamos na praia de Copacabana e, aos poucos, a amizade se consolidou. Mas sobre Izildinha eu só tinha ouvido falar rapidamente. Caio contou que ela estava recém separada, saindo de um casamento de dez anos e que, para reorganizar a vida, foi passar uma temporada em sua casa.

Eu não imaginava como Izildinha era fisicamente. Nunca tive essa curiosidade. Até o dia em que flagrei sua calcinha solitariamente pendurada na porta do box do banheiro da casa de Caio. Pela cor da pele do irmão, calculei que ela fosse morena como ele. Uma morena de cor jambo e mignon.

Já havia tanto tempo que eu estava no banheiro que Caio bateu na porta e perguntou se havia algum problema comigo. Fiquei constrangido. Sem jeito, eu disse que não e tratei de dar descarga e abrir a torneira para lavar a mão. Depois sai e quando estava na sala me dei conta de que não fizera xixi. Fiquei apertado. Não podia voltar. O meu amigo me consideraria maluco.

Daquele dia em diante Izildinha não me saiu da cabeça. Como poderia me interessar repentinamente por uma mulher que eu não conhecia e nunca vira? Só podia ser carência. Eu andava tão só, que até calcinha adandonada mexia comigo.

À noite eu e Caio fomos a uma boate. Encontramos duas amigas dele, mas a calcinha de Izildinha não me saia da cabeça. Enquanto dançava com Verônica, fiquei excitado. Ela percebeu e me arrochou. Só não imaginou que tanta excitação se devia à lembrança da imagem da calcinha de Izildinha pendurada na porta do box. E agora?

Verônica era uma mulher bonita. Àquela altura, no entanto, eu estava irremediavelmente fiel e apaixonado por uma calcinha.

“Eu me caso com Izildinha na hora em que ela quiser” - pensei enquanto dançava com Verônica.

A noite foi ficando entediante. Verônica era uma mulher bonita, mas snob. Gostava de contar vantagem. Soava arrogante. E não parava de falar da tal viagem que frizera pela Europa.

Fiquei sabendo de toda a sua vida em poucos minutos. Que havia comprado carro, apartamento e até ações.

“Se eu venho de família pobre e venci, todos têm a obrigação de vencer também” - ela discursou, em plena boite sob luzes neon.

Quando ela disse a frase, eu pensei:

“A noite acaba aqui. Vou dormir sozinho”.

Passava das três quando tocamos para a casa de Verônica. Caio nos deixou na entrada do prédio, em Ipanema, e levou Rosa, sua namoradinha, para dormir com ele. Quando o carro dobrou a esquina, Verônica me chamou para subir.

Recusei gentilmente, alegando cansaço, e me despedi dela ali mesmo.

“Até nunca mais” - eu tive vontade de dizer.

Queria mesmo era dormir no banheiro da casa de Caio e passar a noite namorando a calcinha da Izildinha.

Fui para a minha casa e passei a noite em claro. Fiquei pensando num jeito de raptar a calcinha da Izildinha. Ninguém perceberia. Afinal, a própria Izildinha tratou a peça íntima com desprezo quando viajou para visitar os pais em Guapimirim - cidade localizada no pé da Serra de Teresópolis -, e não a levou.

Quando viajamos, selecionamos sempre as roupas preferidas. Izildinha desprezou a calcinha branca de flores miudas e vermelhas. Pareciam pequenas rosas.

“Se a calcinha branca com flores vermelhas é a mais feia, como serão então aquelas que ela mais gosta”?

Só preguei os olhos quando amanheceu. Acordei às onze. Por volta do meio-dia liguei para o Caio. Rosa atendeu. Perguntei se iam à praia. Ela riu e respondeu que “ só no fim da tarde”.

O tom maroto de sua resposta deixou claro que a noite tinha sido pouco para o tanto que eles pretendiam ainda se divertir na cama. Conclui que os dois ficariam mais tempo juntos e a sós. Fiquei frustrado.

“Preciso ir até lá” - eu pensei – “e se a calcinha se sentir solitária e resolver se suicidar? E se ela se jogar lá de cima da porta do box e cair dentro do vaso sanitário? Tenho de salvá-la e adotá-la definitivamente.

Tomei uma decisão:

“Depois que eu resgatá-la, ela vai morar na minha gaveta de cuecas “ - eu decidi.

Passei o resto do dia frustrado, andando de um lado para o outro da casa. O noticiário da TV anunciou o jogo do Fluminense. Caio também é tricolor. Liguei. Ele atendeu.

“Vamos ao Maracanã? É jogo decisivo. Se o Flu ganhar deixa a zona do rebaixamento” - ele observou.

“Em seguida tomamos um chope no Baixo” - eu arrematei consciente de que resgatara o meu amigo dos braços da insaciável Rosa.

Caio topou. Vibrei.

Antes que Caio desligásse, lembrei do meu talismã. A camisa do Flu que usei em todos as 37 rodadas do campeonato. Eu a emprestei pra ele e não a vi mais. Não poderia deixar de usá-la na última rodada. Aquela em que o meu time corria sério risco de rebaixamento e precisava de todas as foças, até as sobrenaturais.

Mas Caio me decepcionou.

"Está na lavanderia" - foi como um balde de água fria. Mau presságio. O meu time corria risco real de cair para a segunda divisão. Novamente. Fomos assim mesmo. Eu fique pessimista. Mas não podia atrair maus fluídos. Mudei de assunto.

“E Rosa?” - eu quis saber.

Para minha surpresa, ele a desqualificou:

“Gosto dela, mas é pegajosa, já foi embora. A mulher já está se achando dona do pedaço” - ele contou.

Caio é um amigão, mas tem o defeito de desqualificar as mulheres depois de “usá-las”. Mas um dia ele aprende como tratá-las. Acho que vai sofrer muito até aprender. Mas vamos em frente.

Com Rosa fora da agenda, eu poderia voltar a freqüentar o banheiro da casa de Caio para namorar a calcinha de Izildinha.

À noite nos encontramos em frente à Estátua do Beline. Vimos o jogo e vibramos com a vitória do Flu. Era a garantia de que nosso time continuaria na primeira divisão no ano seguinte. Fomos comemorar.

Caio estava entediado, mesmo depois de ter trepado a noite e o dia todo, de ter dispensado a gata e da Vitória do nosso Flu. Eu dormi no zero a zero, mas feliz por ter encontrado o verdadeiro amor da minha vida, ainda que personificada numa calcinha.

Estava definitiva e incorrigivelmente apaixonado pela primeira vez na minha vida. A calcinha de Izildinha seria a minha companheira pelo resto da vida.

“Eu vou jurar amor e fidelidade eterna no altar” - decidi.

O papo sobre futebol ficou animado e Caio melhorou o astral. Na hora que eu ia encadear umas perguntas sobre Izildinha, ele recebeu telefonema de Rosa. Mais uma vez, o meu amigo anunciou que me deixaria sozinho. Fiquei frustrado.

“Vou ficar mais um dia sem ver a calcinha da Izildinha. Não sei se resisto” - conclui.

Antes de ele sair, no entanto, me surpreendeu:

“Vai lá pra casa e me espera. Vou passar no apartamento de Rosa, mas não quero ficar muito tempo”.

Depois chegou bem perto do meu ouvido e confessou:

“Vou dar trepadinha rápida e me mando. Ela é gostosa, mas é muito chata”.

Esse é o meu amigo Caio! Grande figura humana, mas um pulha em se tratando do sexo feminino.

Apanhei a chave e parti para a casa do Caio. Sai pensando:

“Chego lá, me tranco no banheiro e me caso com a calcinha da Izildinha. Comunhão de bem. Na alegria e na tristeza”.

Tomei um táxi. Tinha pressa. Cheguei no saguão do prédio onde Caio morava e o Severino, porteiro botafoguense, me cumprimentou pela vitória do Flu e foi logo dizendo que o Caio tinha saído.

“Eu sei Severino, estava com ele no Maracanã”.

Severino ia dizer mais alguma coisa, mas o elevador chegou e eu subi sem lhe dar ouvido.

Cheguei ao sexto andar, abri a porta do apartamento de Caio e entrei. Estranhei que a luz da cozinha estava acesa. Caminhei mais alguns passos e percebi um barulho de gente mexendo em panelas. Foi quando dei de cara com uma morena linda, de cabelo preto, nariz fino, seios pequenos um olhar triste, mas enternecedor.

“Quem é você”? - eu quis saber.

“Eu que pergunto” - ela devolveu intrigada.

“Eu sou amigo do Caio”.

“Eu sou a irmã”.

Arregalei os olhos:

“Izildin.., digo Izilda??”

“Sim”, você me conhece?”

Tive vontade de dizer que mais do que ela imaginava e que já a amava mais do que a mim mesmo. E mais: que estava prontinho para casar com ela em comunhão de bens. O que significava que a calcinha, aliás, todas as suas calcinhas seriam minhas também.

O meu coração disparou.

“Caio me falou de você” - eu puxei assunto.
“Pois é, me separei e estou morando aqui por uns tempos”.

“E como está Guapimirim?”

“Tudo bem” - ela respondeu num tom meio triste, o que me despertou vontade de oferecer solidariedade e ombro.

“Você conhece a minha cidade?” - ela prosseguiu.

“Ainda não, mas o Caio me falou das cachoeiras, do calor, da moçada bicho grilo e da parte histórica” - resumi.

“É uma cidade agitada” – ela acrescentou já tirando do rosto a expressão de tristeza.

“Tenho vontade de conhecer” – comentei, com uma enorme vontade de abraçá-la.

“Não deixe de ir” - ela emendou e, em seguida, mudou de assunto:

“Onde está o Caio?” – ela quis saber.

Eu disse que tínhamos ido ao Maracanã, mas que depois ele recebeu telefonema de Rosa e que foi encontrá-la.

“Rosa? Ele vive falando mal dela, mas não desgruda” - ela denunciou - o que eu estava cansado de saber - e riu.

A risada de Izilda me balançou de vez. Eu já não cabia em mim de excitação e desejo por aquela mulher.

“Como eu sou volúvel”, - eu pensei – “há dois segundos estava apaixonado pela calcinha dela, agora parece que vou me apaixonar pela risada também”.

“Posso ir ao banheiro” - eu perguntei de supetão e corei de vergonha. Depois fiquei me perguntando por que pedi permissão e não anunciei apenas que iria ao banheiro. Idiota.

Estava excitado, desejoso de tocar aquele corpo e muito nervoso. Izilda percebeu o meu desconforto e riu de mim. Deve ter pensado:

“Como negar?”

Imagine se ela diz:

“Sinto muito, mas não pode, porque lavei todas as minhas calcinhas e coloquei para secar no banheiro”.

Eu me urinaria. Mas ela foi generosa e apenas riu da bobagem que falei. Fui e, para a minha decepção, constatei que a calcinha dela não estava mais por lá.

“Será que se suicidou, saltando da porto direto para o vaso sanitário?” – “Coitada”.

Fiquei lá imaginando com os meus botões onde poderia ter ido parar a calcinha da Izildinha que até esqueci o tempo.

“Demorei tanto tempo para voltar que a calcinha ficou desiludida” - conclui.

Aí me trai quando chamei por ela em voz alta:

“Calcinha, calcinha!”.

Izilda respondeu do lado de fora do banheiro, como se eu tivesse me dirigido a ela:

“Você chamou?”

“Ih. A Izilda está pensando que falei com ela. Estou ficando louco” – pensei.

Arrisquei dizer qualquer coisa.

“Izilda??!! você faz o quê?”

Que ideia louca. Mais uma pergunta idiota, fora de contexto. Como pode alguém Conversar com outra pessoa, que mal acabou de conhecer, com uma porta de banheiro a separá-los.

Mas, para minha surpresa, a conversa evoluiu.

“Eu sou arquiteta” – ela revelou.

“Que legal?” - eu comentei, sem saber o que dizer em seguida.

“E você?” - ela me salvou antes que enfiasse a cabeça na privada e puxasse a descarga.

“Eu? Eu sou escriturário”.

“Bacana” - ela elogiou.

O “bacana” dela me intrigou. Como alguém pode considerar bacana um cara ser escriturário. Bem, há gosto pra tudo. Mas, eu conversava com ela parado na frente do vaso e não conseguia urinar.

“Tenho um amigo escriturário, que ficou rico” - ela acrescentou.

Tratei de mudar o rumo da prosa. Não era o momento certo de discutir fórmulas de escriturários ficarem ricos.

“Você...”, - eu ia dizendo quando a porta do banheiro se abriu.

“Posso entrar?” - ela perguntou já entrando.

Quando eu percebi, Izildinha estava dentro do banheiro. Depois de me olhar com olhos de desejo e sorriso maroto, ela virou, trancou a porta por dentro e ficou de frente pra mim.

Meu coração disparou. Izilda observou nada constrangida quando eu, puro constrangimento, resgatei o meu pênis para dentro da calça e fechei o zíper.

Recomposto, me senti um pouco menos constrangido. Ela, com muita tranquilidade e segurança, tirou a blusa por cima da cabeça e depois abriu o zíper da saia jeans, que caiu sobre seus pés.

Arregalei os olhos quando a vi só de calcinha. Aí descobri finalmente onde se achava a calcinha, a minha namorada, aquela que eu fui ao banheiro para encontrar e resgatar. Estava no corpo dela.

Caiu-lhe tão bem, que imaginei: foi desenhada e costurada exclusivamente para ela.

Izildinha me encarou e perguntou:

“O que você tanto olha pra minha calcinha?”

“É linda” – devolvi, excitado e nervoso.

Foi quando ela me ganhou de uma vez por todas:

“Posso te confessar um coisa?”

“Você pode tudo” - eu disse, percebendo que as coisas por dentro de mim começavam a ficar no lugar e eu começava a ficar mais à vontade.

Ela então falou:

“Eu gosto tanto desta calcinha que abreviei a minha volta de Guapimirim só para vesti-la. Fiquei de lá imaginando o tempo todo que a esqueci pendurada ali – disse apontado para a porta do box - sozinha”.

Eu olhei fixo para aquela linda mulher seminua à minha frente, conferi com os olhos que a maçaneta da porta estava trancada, e nunca mais fui tão sincero nas minhas confissões:

“Eu te amo, Izildinha”.

Ela deu um sorriso meigo, o que a deixou mais sexy, chegou ainda mais perto e me abraçou. Depois, ela escorregou as mãos pelos meus cabelos, me beijou com lábios molhados e gemeu ao encostar seus seios rijos no meu peito.

Por fim revelou:

“Eu também te amo, Juca. Desde o dia em que você esqueceu aqui em casa a sua camisa do Fluminense e eu senti o cheiro do seu suor" - ela disse e me ganhou definitivamente.

                                                                         FIM