quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Carugurací: Cidade Solidão


Capítulo 1
 
A brisa suave anunciou a chegada da primavera carioca, mas Fernando Afonso não percebeu. Caminhando pelo calçadão da Avenida Atlântica, em Copacabana, bairro mais charmoso, daquela que é uma das mais famosas cidades do mundo, o Rio de Janeiro, ele sequer se deu ao trabalho de olhar para trás quando a freada brusca de um carro não evitou o atropelamento de uma criança. Cena para a qual estava atenta uma mulher gorda e grisalha, vestindo bata e calça exageradamente coloridas. Ela deu um grito de horror e exclamou:
– Ah, santinha!
Céu muito azul, movimentação de banhistas na areia da praia, Fernando seguiu seu caminho, pois de tudo o que ele saiu de casa para ver, ouvir ou sentir naquele dia, nada o incomodou mais que o sol escaldante que incendiava sua cabeça, onde se sustentava, pouco acima da testa, um minguado tufo de fios de cabelos.
Ele revelou, contudo, que andava sem lenço no bolso porque, ao espirrar, usou indicador e polegar da mão direita para expulsar de dentro do nariz o resto do catarro que obstruía suas narinas. A um estalo de dedos jogou tudo no chão. Por fim, limpou a mão na manga da camisa e seguiu adiante.
Um aposentado que estava sentado no banco do calçadão, de costas para o mar, teve vontade de escrever uma crônica. Lembrou-se, no entanto, que era hora de voltar para casa e tomar o remédio.
A estudante Jéssica Freitas, que passeava de mãos dadas com o namorado, também presenciou a cena e sentiu ânsia de vômito. Morena, com umbigo ao vento, ela abraçou os cadernos com uma das mãos e segurou a do namorado com a outra. Os dois mataram aula para perder a virgindade no apartamento em que o jovem morava com os pais nas imediações.
Com corpo de mulher, Jéssica descobriria logo que, além da virgindade, perdera uma prova na escola e que, por insuficiência de pontos, ficara em recuperação, deixando seus pais furiosos. Como o seu inferno astral estava apenas começando, ela soube dois meses depois que daria à luz um lindo e saudável menino, a quem batizaria coincidentemente com o nome de Fernando.
Além da gravidez, a jovem seria surpreendida tempos depois com a notícia de que o pai do seu filho viajaria para Toronto, no Canadá, a fim de estudar e começar a vida de adulto. Sem previsão de volta à terra natal.
O mal-estar da namoradinha por causa da cena do homem que se livrou do catarro às suas vistas só aliviou depois que ela chegou à Avenida Nossa Senhora de Copacabana e embarcou numa condução com destino ao subúrbio de Penha. Acomodada no banco atrás do motorista, a estudante acenou para o rapaz que a olhava desde o outro lado da calçada. Ao gesto dele de apenas levantar a mão e acenar ostentando um sorriso amarelo, ela concluiu que algo nele havia mudado desde que os dois deixaram o ninho de amor.
A adolescente chegou em casa já anoitecendo. Cansada, só pensava em desfazer o nó que apertou sua garganta durante toda a viagem. Por isso, tomou banho e correu para a cama. A mãe estranhou tanta discrição na atitude da filha e foi vê-la. Chegando no quarto ela a encarou, para perguntar o que se passou. A conversa ganhou tom choroso e a verdade logo surgiu.
Depois, as duas se abraçaram e choraram. Uma fragilizada Jéssica nem percebeu, porém, que uma matreira Arlete entendeu logo a gravidade dos fatos e pensou que pudesse assumir o controle da situação.
– Qual a profissão do pai do rapaz, filha?
– Quando a gente passeava pela praia, ele me disse que o pai dele era dono de um hotel grandão que tem lá em Copacabana. Acho que ele apontou para o mais alto de todos – a menina respondeu.
A mãe se calou, levou a mão ao queixo e congelou o olhar em algum ponto da parede do quarto. Depois chegou à janela, de onde enxergou a lua cheia e o céu estrelado. Ainda pensativa, ela deu mais um giro no olhar e alcançou a Igreja da Penha, sempre vistosa e muito iluminada. Olhos fixos num dos cartões postais da cidade, orou em voz baixa pela harmonia de sua família e pelo futuro da filha.
A estudante se distraíu ouvindo música sem imaginar quão boas perspectivas sua mãe vislumbrava naquela breve oração. Menos mal, porque o pai dela, Geraldo Freitas Júnior, era um homem compreensivo e incapaz de qualquer gesto mais brusco contra mulher e filha.
Ele receberia mais tarde com apreensão, porém, a notícia de que a sua eterna menina agora era uma mulher e com a mesma passividade reagiria, meses depois, ao saber que seria avô.
– Vista o pijama e venha jantar, filha.
– Perdi a fome.
– Por quê?
– É que vi um homem lá em Copacabana cuspindo no chão e até agora estou com ânsia de vômito. Que nojento! Um cara muito esquisito. Naquele tremendo sol, ele vestia uma roupa preta e parecia um corretor de funerária.
Arlete riu da expressão usada pela filha para descrever Fernando Afonso.
– Quê? Onde você arrumou isso de corretor de funerária?
– Agora!
Arlete sorriu e abraçou a filha. Depois brincou:
– Acho que você deveria ser comediante.
– Eu? Não senhora, eu quero ser contadora. Vou trabalhar num escritório de contabilidade. Adoro quando as contas fecham, o ativo e o passivo batem, sem deixar diferença. É uma ciência exata. A senhora não imagina o que se pode fazer de errado numa contabilidade.
– Como assim? – quis saber uma curiosa mãe.
– O meu professor disse que grandes empresas maquiam seus balanços para sonegar impostos e ter mais lucros. Os caras ficam milionários e os empregados continuam pobres, mãe.
– Minha filha vai ser contadora e justiceira!
As duas riram. Arlete sentia um amor doentio pela filha. A jovem era o fruto de um caso rápido que Arlete teve, coincidentemente, com Fernando Afonso antes de se casar com Freitas. Só uma pessoa conhecia sua história: o doutor Martorélio Pereira. Fernando Afonso sequer imaginava que era pai e depois que se afastou, nunca mais viu ou teve notícias de Arlete.
A mãe zelosa ainda deu um último aviso à filha mimada, antes de lhe dar boa noite.
– Hoje você pode dormir sem fazer o dever, porque amanhã é sábado.
Jéssica pulou da cama e abraçou a mãe:
– Ô, mãezinha linda...
– Por falar em sábado, vou cedo na cidade e quero que você vá comigo.
Jéssica cerrou o semblante:
– Vou? Mas eu queria dormir...
– Vai comigo. Vamos almoçar na Espaguetelândia?
Jéssica reabriu o sorriso e concordou com a cabeça. A moça adorava comer macarrão na Espaguetelândia, uma das mais tradicionais casas de massas do Rio.
– Mãe, como é mesmo aquele samba engraçado que a senhora canta sobre a Espaguetelândia?
Arlete adorava roda de samba, mas a menina a desconcertava todas as vezes que tocava no assunto com seu jeito moleque. Mas Arlete se rendeu aos encantos e à descontração da filha:
– É o samba “Ladrão de Galinha”, de Nei Lopes. Eu canto pra você. Só um pedacinho: “Foi num salão, ali no baixo Cinelândia, Perto da espaguetelândia, na Francisco Serrador, Que eu descobri que não tem bem que sempre dure, conhecendo a manicure Ana Luzia Eleonor, com seu jeitinho encantador” (...)”. Breque.
Risos, abraços e tapinha no bumbum.
– Já pra cama, menina travessa!
Depois de puxar o colcha para cobrir a filha, Arlete chamou Deus às falas e lhe fez uma advertência: “Nem me imagino viver sem minha filhinha. Nem se atreva, Senhor, a tirá-la de mim. Nunca o perdoaria e viraria esse céu aí de cabeça para baixo”.
Fernando Afonso alcançou um estágio de sua existência em que predominavam nele mau humor, tristeza e angústia. Por dentro uma sensação de vazio e por fora absoluta incapacidade de ver satisfação em qualquer coisa, espremiam-lhe o coração a ponto de quase sair pela boca. Prazer, palavra que, havia muito, perdera o sentido.
Em suas andanças desprezava as paisagens e os pontos turísticos da cidade do Rio. As pessoas com as quais cruzava nas ruas tinham a mesma cara. Não havia nele mais equilíbrio emocional e muito menos disposição para sustentar um relacionamento afetivo. Por isso, ele rompeu o namoro com Mirtez Luizam, dois dias depois do passeio por Copacabana. A última das três amantes que teve na vida. Ele entendeu a atitude como acertada.
O projeto de futuro para o qual ele foi buscar inspiração na orla do Rio, na tarde de estreia da primavera, excluía, portanto, seres vivos e racionais. Moribundos, talvez. Mortos, com certeza. Por tudo isso, Fernando Afonso Alves, quarenta e poucos anos, profissão contador, estado civil solitário permanente, amadurecia a vontade de se isolar de tudo e de todos, em algum lugar pra lá do inferno.
No balanço geral, Mirtez viveu infeliz ao lado de Fernando Afonso todo o tempo. Os dois fracassaram na tentativa de viabilizar um projeto de vida em comum. Em alguns bons momentos da relação, ela sentiu vontade de se casar, mas a instabilidade emocional dele obrigou-a a recuar outras tantas. Por isso, o namoro estagnou antes de se tornar uma falida instituição.
Mirtez temia ser abandonada no altar, ou, o que é pior, que um dia acordasse, olhasse para o lado esquerdo da cama e encontrasse apenas uma cueca suja e um bilhete mais sujo, justificando o injustificável.
Reconheceria depois de tudo, refletindo a vida e a atitude do ex-namorado, que sua insegurança também contribuiu para o fim da relação. Enquanto conviveram, eles jogaram com a autodestruição, até o dia em que o próprio Fernando, ainda que num gesto egoísta e desesperado, arrebentou a corrente da insensatez que os atava e salvou os dois do suicídio.
Depois do périplo por Copacabana, Fernando admitiu a si mesmo que precisava de um médico. Não um que lhe receitasse alívio para as dores na nuca, mas aquele que lhe desse algo que o ajudasse a se desintegrar de uma vez. Contudo, ele demoraria ainda dois meses para procurar ajuda. Mas um dia marcou consulta com o doutor Martorélio Pereira, que o recebeu no fim do expediente.
Eram grandes amigos. Embora houvesse uma diferença de vinte anos entre os dois, Martorélio fez por muito tempo papel de confidente, ou de um irmão mais velho para Fernando Afonso.
Tudo na vida do médico aconteceu mais tarde. Solteirão convicto, ele se formou pra lá dos 30 anos e se casou com Clarilda perto dos 35. O casal morou por uma temporada nos Estados Unidos e de lá retornou cinco anos e cem mil dólares depois. Não tiveram filhos, mas isso ficou longe de representar uma frustração para ambos.
Martorélio especializou-se em clínica geral e montou consultório no vigésimo andar de um prédio comercial, na Praia de Botafogo, de onde avistava a enseada, o bairro da Urca e o Pão de Açúcar. Clarilda fez concurso público e virou burocrata do Ministério da Educação, onde trabalhava numa sala cercada de paredes por todos os lados.
O médico tinha dois segredos que o incomodavam e lhe tiravam o sono, a fome e, às vezes, a vontade de viver. O primeiro era o fato de saber da filha de Fernando Afonso com Arlete e nunca ter contado a verdade ao amigo. O outro, um episódio vivido por ele, quase trinta anos atrás, numa viagem de férias a uma cidade, no interior da Paraíba, chamada Caruguraci.
Tudo aconteceu quando ele, depois de se hospedar num hotel da cidade, saiu para se divertir com dois amigos também estudantes, Jones Luis e Miguel Filho, e se desgarrou. Naquela noite, cada um viveu um inesquecível romance típico de férias de verão. À exceção de Martorélio que viveu algo cercado de mistério por todos os lados.
Um enigma cercado de ingredientes de noite dos horrores. Depois de muito beber e sumir, ele acordou dentro do carro, estacionado debaixo de uma árvore, na periferia da cidade, todo sujo de sangue e com a camisa rasgada. Martorélio nunca se lembrou de um segundo sequer do que lhe aconteceu a partir de determinado momento da noite em que relaxou mais do que podia e bebeu mais do que devia.
A eterna dúvida deixou-o para sempre em parafuso. A partir daquela data, ele passou a considerar todas as hipóteses para a sua desventura, até a de ter matado alguém. Por isso foi condenado a viver em dúvida. “O que me aconteceu naquela noite, meu Deus”? É a pergunta que ele se fazia pelo menos três vezes ao dia.
Fernando Afonso chegou ao consultório de Martorélio na hora marcada e foi recebido de braços abertos. Mas deixou claro que estava pra pouca conversa. Angustiado e impaciente, disse ao que veio:
– Preciso de você.
O médico estranhou a falta de disposição do amigo para, ao menos, cumprimentá-lo e recolheu os braços:
– O que há, meu caro, nem me cumprimenta direito?
O paciente deu de ombros:
– Você promete que me ajuda?
– Prometer o quê, amigo?
Martorélio franziu a testa, fechou o semblante e levou as mãos aos bolsos. Estava apreensivo e constrangido. Ele só encontrou conforto para os olhos quando mirou a janela e enxergou o Pão de Açúcar, do outro lado da enseada de Botafogo, meio encoberto pelas nuvens, num frio anoitecer.
Nesse clima o médico se preparou para ouvir rosário de problemas de perder fome, sono e fé. Por isso, ele se virou para encarar Fernando e começar a entender a situação.
– Tenha calma, Fernando! Tudo vai se resolve quando vocês abrir o coração.
As palavras que eram uma tentativa de confortar, desconfortaram. Fernando Afonso ficou agressivo.
– Maldita medicina, maldita amizade!
Numa atitude inesperada, o paciente avançou sobre o médico e o segurou pelo jaleco, com as duas mãos, na altura do peito. Agarrou com tanta firmeza que conseguiu empurrá-lo até a parede.
Martorélio temeu pelo pior. Que o outro puxasse uma faca ou algo assim e provocasse uma tragédia. Logo ele concluiu que se reagisse no mesmo sentido as consequências seriam uma luta corporal de contornos imprevisíveis. Precisava, portanto, controlar a situação, usando de muita cautela. Assim, insistiu no diálogo, procurando palavras que de conforto. Antes de tudo, era preciso convencer o agressor a largá-lo:
– Calma, rapaz. O que você está querendo fazer?. Solte-me, vamos conversar. Você quer ajudar ou quer brigar?
Os argumentos de Martorélio surtiram efeito e Fernando o soltou:
– Você é meu parceiro? – quis saber um visivelmente angustiado paciente:
– Sou seu amigo, mas to ficando preocupado. Se abre, homem! O que está acontecendo?
A pergunta se seguiu ao gesto de tentar arrumar o jaleco no corpo para depois alisá-lo com as mãos. Recomposto, Martorélio respirou fundo e secou o suor da testa com um lenço. Fernando encarou-o e falou da sua tenebrosa intenção.
– Quero que você corte a minha língua fora.
O pedido assustou mais um já muito assustado clínico. Boquiaberto, ele congelou a expressão e ficou mudo. Era difícil acreditar no que acabara de ouvir. Olhou novamente a janela e reencontrou o Pão de Açúcar livre das nuvens. Passava das 18 horas. O tempo permanecia frio e era intenso o congestionamento de veículos na Praia de Botafogo, nos dois sentidos.
Depois de assimilar um pedido que teve o efeito de um soco no estômago, Martorélio apelou ao bom senso. Queria encontrar na razão a resposta para convencer o amigo a desistir do seu desejo.
– Tenha consciência. Isso não está certo. É uma bobagem. Não atenderia o seu pedido em hipótese alguma. A não ser que você tivesse um câncer na língua, que não é o caso.
Fernando estava obcecado:
– Ninguém precisa saber que você me fez um grande favor. – disse.
Aquela conversa virou um jogo que tinha de ser jogado cautelosamente:
– É loucura, meu caro. Vejamos como poderei te ajudar melhor.
Fernando Afonso irritou-se novamente e elevou o tom da voz:
– Tenho direito de fazer do meu corpo o que quiser. Se tiver vontade de pular numa perna só, quem me impedirá? A Justiça? A Ciência? Deus? Tenho direito à solidão, tenho direito de permanecer calado pelo resto de minha vida. E é o que eu mais desejo.
Aquele desabafo deixou mais claro o que Fernando queria. O médico emudeceu mais uma vez e caminhou até a janela para fechá-la, prevendo que choveria. Depois ele voltou ao assunto:
– Ninguém está contestando o seu direito de decidir como quer viver. Mas o que você quer fazer com o seu corpo é antiético e amoral. Você tem consciência das consequências?
Fernando o encarou. Martorélio prosseguiu:
– Você está num momento de fraqueza. Inseguro, angustiado, ansioso e preocupado. Mas isso passa. Mas se você cortar sua língua fora, as consequências serão para sempre.
Fernando Afonso estava irredutível:
– Já pensei em tudo e digo que estou pronto para ficar calado pelo resto da vida. Pode cortar sem anestesia não tenho medo de dor.
Os olhos de Martorélio encheram de lágrimas, pois aquele que estava pedido para morrer à sua frente era alguém que gozava de sua estima e consideração. Por um instante ele relacionou a angústia do outro àquela que carregava havia anos dentro do peito e que atendia por Caruguraci.
Fernando caminhou de um lado para o outro do consultório e parou na frente da foto de uma peça publicitária onde a modelo vendia saúde e remédio para acne. O tom da voz agressivo deu lugar a um desabafo. Finalmente, ele mudou o tom e pediu ajuda para aliviar seu suplício.
– Não suporto mais ouvir vozes. Me sinto mal com pessoas à minha volta. Queria que esta fosse a minha última conversa. Perdi a vontade de ir àquele escritório, de jogar bola, de ver televisão, de ir ao cinema. Não tenho ninguém nesta vida, nem uma profissão decente. Você é médico. Eu sou o quê? Escriturário. Isso é profissão? Não vou ganhar nada sendo escriturário. Você pode ganhar o Prêmio Nobel da Medicina.
Martorélio o interrompeu:
– Por favor, deixe de ser tão exigente. Eu não quero prêmio pelo meu trabalho. Isso é bobagem. Você está em crise. É passageiro. É só fazer um tratamento.
Fernando quis ser irônico:
– E como é que se trata? Dizendo ao sujeito: saia desta, olhe o mundo lá fora, vá à praia, abra uma cerveja, leia um livro e se sinta vivo. Veja o sol, a lua, as estrelas, o mar e vá ao cinema. Vista uma roupa bonita e namore muito.
Os argumentos do médico tinham direção:
– O que mais é a vida, meu irmão? Tem um filósofo alemão chamado Feuerbach que escreveu: “o homem existe para amar, para conhecer e para querer”. Faça com ele as suas reflexões – disse Martorélio.
Fernando deu de ombros para a filosofia e voltou a se exaltar:
– Estou afundando na areia movediça e você me diz para sair sozinho dessa.
Martorélio engasgou de pena do amigo.
Depois de olhar a chuva da janela, Fernando se virou e ficou de frente para o médico. Depois de encará-lo disse que se sentia agredido até quando dialogava consigo, lamentando o rumo que sua vida tomou.
– Será que houve um tempo meu?
Martorélio tentava contrariá-lo como uma forma de ajudá-lo:
– O que é isso, Fernando? O nosso tempo é agora. Se você está infeliz, é tempo de encontrar a felicidade e parar de olhar pelo retrovisor. Longe com isso de achar que o seu tempo passou; que você está velho para viver, ser feliz, ter alguém.
O debate ganhou tom dramático:
– Tudo me soa vago e sem sentido. Meus sonhos não se realizaram; se é que algum dia eu sonhei; não tenho ideais. Nada do que fiz é útil para evolução da espécie humana. Minha vida é um eterno hesitar.
Martorélio mais uma vez reagiu à obsessão de Fernando por um legado:
– Nem todos vêm ao mundo com a missão de contribuir para a evolução da espécie, meu caro. A maioria vem apenas para viver, procriar, e isso já é uma dádiva.
Em seguida, o médico abriu uma gaveta e achou o cortador de unhas. A chuva apertou. De sua mesa ele olhou a janela e descobriu uma brecha nas nuvens por onde avistou o Pão de Açúcar iluminado. Estava decidido a dar uma última cartada, convidando Fernando Afonso para uma boa noitada, uma cerveja gelada e uma conversa fiada em algum bar ali perto.
– Vamos nos divertir um pouco.
A proposta fracassou. A decisão de morrer por partes estava tomada, sem direito a recuo ou intervalos para se divertir.
– Você corta a minha língua ou não?
Martorélio sentiu que seu amigo estava intransigente e decidiu ser médico, só isso:
– Meu caro, é mais prudente te receitar um antidepressivo.
Fernando calou. O médico abriu a gaveta e puxou um talão de receituário.
Aquela atitude determinou o fim da consulta, já que Fernando partiu sem se despedir e levar a receita. Saiu apressado e no corredor que dá acesso ao elevador cruzou com Arlete e Jéssica, sua ex-namorada e sua ignorada filha. Alguém que, naquele momento de absoluta angústia, talvez pudesse representar para ele uma razão para deixar de lado essa coisa de se mutilar e assim resgatar a vontade de viver.
Mãe e filha tinham consulta com o doutor Martorélio, o médico da família, confidente de Arlete e padrinho de Jéssica. Ao cruzar com um Fernando Afonso afoito e apressado, a moça o reconheceu como o homem que cuspiu no calçadão da Praia de Copacabana dois meses atrás.
Arlete falava com o marido pelo celular e nem o notou. Se o tivesse visto, na certa se sentiria mal. Afinal, depois de duas ou três saídas, eles nunca mais se viram ou se falaram:
– Mãe, viu o homem que passou por nós apressado e desajeitado?
Arlete já havia se livrado do celular e entrou em sintonia com a filha:
– Não, quem é?
– É o cara nojento que cuspiu no chão em Copacabana e que me deixou com vontade de vomitar vários dias.
– Cruzes, minha filha. E ele saiu de onde?!
– Veio do fundo do corredor.
– Será que é cliente do Martorélio?
– Quem sabe?
– Médico também tem as suas missões espinhosas. Ainda bem que você será contadora.
Arlete estava feliz e espirituosa. Na conversa que acabara de ter com o marido ela recebeu a notícia de que ele conseguiu um empréstimo para reformar o apartamento.
O namoro de Arlete e Fernando fracassou, mas determinou a aproximação dela com Martorélio. Uma amizade de quase duas décadas, mas que virou segredo. Para Fernando, a passagem dela por sua vida foi um desses casos para relevar.
As diferenças entre eles logo ficaram gritantes e, pruden-temente, cada um tomou o seu caminho. Só que no caminho de Arlete havia uma gravidez. Quando entendeu sua situação, ela procurou Martorélio. Pretendia abortar, porque havia reatado um velho namoro e o rapaz queria se casar. Como médico e cristão, Martorélio a dissuadiu, mas a aconselhou a “engravidar” do namorado.
“Grávida” de Freitas Júnior, Arlete poderia forçá-lo a apressar a papelada do casamento, de modo que a criança nascesse de “sete meses”, numa conta mentirosa, mas num lar harmonioso. O casamento remediou sua vida. Martorélio pesou os prós e contras da solução achada por Arlete e concordou em guardar segredo. E assim os anos se passaram.
Mãe e filha entraram no consultório e encontraram Martorélio ausente, longe, absorto em seus pensamentos. Ele buscava em Caruguraci respostas para seu drama pessoal. As duas olharam-no intrigadas e se entreolharam com vontade de rir:
– Oi, Martorélio, algum problema?
Ao ouvir a voz de Arlete, ele retornou imediatamente de Caruguraci e aterrissou em Botafogo:
– Não. Tudo bem... – disse sem graça.
Logo se recompôs, abraçou e beijou Arlete no rosto e deu um longo abraço em Jéssica. A brincadeira era inevitável:
– Como vai, miss Brasil?
Arlete sacou e atirou a queima-roupa:
– Grávida, meu compadre!
O médico arregalou os olhos. Já havia experimentado emoções demais para um dia. Só podia ser: “o irônico destino resolveu caçoar de mim”. Ele examinara o pai de Jéssica que pretendia se matar e depois examinaria a filha dele que daria à luz uma nova vida.
O padrinho evitou perguntar pelo pai da criança. Arlete também não entrou em detalhes sobre o estado da filha. A consulta não durou mais que meia hora entre conversas e receitas. Quando as duas se foram, ele chegou na janela e procurou o Pão de Açúcar. Lá estava: iluminado e imponente no seu papel de cartão postal.
A chuva havia passado e a noite prometia ser tipicamente carioca – estrelada e linda –, embora a temperatura ainda se mantivesse baixa. Martorélio fixou o olhar no Pão de Açúcar e chamou Deus às falas:
– Me dê conforto, meu Senhor. Estou traindo o meu melhor amigo. Sou um monstro que vai privá-lo, eternamente, do seu direito de conhecer a filha e o neto – disse sem evitar uma lágrima.
Contudo, encerrou o expediente. Fechou portas e janelas, apagou a luz e saiu para beber. Naquela noite ele chegou em casa bem tarde, com muitos graus etílicos acima do tolerável. Álcool, inimigo da angústia.
Clarilda o poupou. Entendeu que o marido estava triste. Preparou para ele um banho e o deixou sozinho. Debaixo do chuveiro, Martorélio chorou como um menino abandonado. Tantas emoções só serviram para agravar a sua tormenta chamada Caruguraci.
 
Capítulo 2
 
Mirtez, a ex-namorada de Fernando, e Clarilda, mulher de Martorélio, se conheceram numa festa e passaram a cultivar uma sincera amizade, recheada de bombons, vinho e confidências. Eventualmente trocavam presentes, flores, riam e choravam.
Numa tarde de folga e céu azul, as duas tiraram para conversar sobre a vida. Mirtez antecipou pelo telefone a uma curiosíssima Clarilda que tinha novidades para contar. Quando as duas se encontraram, ela não conteve a ansiedade:
– É que estou correspondendo aos galanteios de um colega da repartição.
Aos 40 anos, Mirtez ponderava algumas limitações que a idade lhe impunha como, por exemplo, engravidar.
– Será que estou velha para namorar, passear de mãos dadas, sorvete, pizza, cinema, tirar sarro na escada da entrada de serviço? Clarilda tentou confortar e estimular a amiga:
– Nem pense nisso. Você é mulher pra homem muito fino levar para a cama, tratar como rainha, dar e receber muito carinho e prazer.
Mirtez sorriu, deu um gole no vinho e revelou que seu novo afair era um gaúcho quarentão, mas de aparência jovial e com algumas características que ela desconhecia no sexo oposto, como carinhoso, atencioso, cuidadoso e com disposição para dançar.
Abandonado pela mulher, ele criava sozinho um casal de filhos. Chamava-se Tarso Lukáz. O cabelo fino e curto repartido ao meio e o modo sóbrio de se vestir, davam-lhe aparência de bom moço.
Quando ele a convidou para jantar, tinha dúvida se estava viúvo ou abandonado. De uma ou de outra forma, havia nele um dilema: reconstruir a vida ao lado de alguém ou se deixar enlouquecer de saudade da mulher que fugiu, levando sua alegria e deixando seu coração partido.
Mirtez, contudo, apareceu e ele enxergou uma oportunidade de dizer a si mesmo que a vida continua. Os dois começaram a sair e, numa noite divertida, num restaurante dançante, o casal jantou e falou mal dos colegas da repartição.
À medida que a conversa evoluiu, ambos descobriram um rosário de afinidades, tanto no aspecto profissional quanto pessoal. Já a atração sexual que um sentiu pelo outro ficou reprimida na timidez de ambos.
Ele confessou que gostaria de viajar mais, conhecer outros povos, culturas e comidas típicas e ela se emocionou. No momento seguinte, quando Tarso prometeu, cheio de sedução na voz e no olhar, levá-la num cruzeiro a bordo do Queen Elisabeth, pela Amazônia Azul, a moça suspirou e imaginou como seria ser possuída em alto mar pelo garanhão dos pampas. Pediu que parasse.
Ele se preocupou:
– Eu disse algo que te magoou?
Ela teve vontade de dizer que se molhara toda dentro da calcinha, mas recorreu à prudência da emoção barata.
– É demais para o coração de uma mulher solitária – disse confessando seu ponto fraco.
Dissimulou, virando o rosto na direção da janela do restaurante para observar a paisagem e concluir que cairia um temporal em pouco tempo.
– Não sei se tenho coragem de enfrentar aquela imensidão de céu e mar – disse ela, manhosa e sensual.
Os dois dançaram após o jantar. Mirtez sentiu-se no paraíso. Tirou um segundo para lamentar os anos desperdiçados ao lado do ex-namorado, Fernando Afonso, um sujeito sem habilidade ou amabilidade.
Depois de dois copos de vinho e de tanto rodar no salão, Mirtez fechou os olhos e esperou ter um beijo roubado pelo companheiro de infortúnio. Ele teve vontade de enfiar a mão por debaixo da blusa dela e apertar-lhe os peitos até ela gemer de prazer e gritar de dor.
O sarro disfarçado no meio do salão trouxe descompasso ao coração da moça e despertou no alazão do Sul o desejo de fazer sexo oral nela, ali, na frente de todo mundo. Desejos velados e contidos que exigiram dissimulação e renúncia de ambas as partes.
“Não é mulher para essas coisas. Tudo ao seu tempo, namoro, noivado e noite de núpcias.”
Mirtez, porém, estava pronta para ser possuída. Naquela noite de preferência. “Podia ao menos sussurrar em meu ouvido que sou sua putinha e depois me apalpar as nádegas.”
Tarso equilibrou-se por muito tempo num casamento recheado de equívocos e sustentado pela enorme atração física que sentia pela mulher e pelo nascimento do casal de filhos. Um dia os dois saíram casados do Rio Grande do Sul e foram morar no Rio de Janeiro.
Luciana Borges foi a primeira mulher de Tarso. Sobre ela, seria impossível fazer a mesma afirmação, já que a intensidade que impôs à vida, desde mocinha, dava-lhe alternativas de experimentar todos os perigos que a excitavam.
Conheceram-se ainda adolescentes. Ele sonhou ser pai e viver feliz para sempre, dedicado ao trabalho e à família. A mulher tinha outras intenções: uma casa para olhar, mas com um quintal cimentado, para não ter trabalho de capinar ou varrer; muito mantimento na dispensa, aparelhos domésticos necessários e desnecessários, tudo ao exagero para poupá-la dos afazeres.
Sobrava em Luciana indisposição para descascar batata, arear panela ou passar roupas. A gaúcha conhecia o Rio de Janeiro pela TV e de reportagens sobre futebol e carnaval. Mas desde sempre se identificou com a cidade e os dois decidiram se mudar.
Quando chegasse a vida nova, uma das primeiras providências dela seria trocar as roupas pesadas por tops e tomara que caia, muito mais apropriados ao clima tropical carioca e ao seu estilo livre e desinibida de ser. Sutiã, nunca mais. Calcinhas, eventualmente.
Acrescentaria ao guarda-roupa minissaias, sapatos baixos e abertos, e sandálias. Exigiria uma mesada para gastar com bobagens para a casa e caprichos pessoais. Coisas de mulher. Fazer sexo e ir à praia no meio de semana, com ou sem Tarso, tornar-se-ia rotina.
Luciana detestava o apelido que o marido lhe arranjou: “Lulu”. Mesmo contrariada com a alcunha, reunia disposição para colocar a Cidade Maravilhosa aos seus pés. Para tanto, esbanjava beleza. Loura, cabelos muito lisos e escorridos, nariz fino, pele alva, chamava a atenção, encantava e excitava a quem via ou ouvia falar dela.
Quando chegou ao Rio, o casal morou de favor na casa de um tio de Tarso. O homem, no entanto, em pouco tempo deixou claro que havia um preço a pagar por lhe tirarem a privacidade. Que o dissesse Luciana, que logo se deu conta de que a casa vivia desarrumada e que havia muito pouco asseio nos hábitos do parente.
O dono da casa não escovava dentes, saia do banheiro sem lavar as mãos e se sentava à mesa sem camisa. T o cabelo sempre em desalinho, barba por fazer, e exibia um corpo peludo e cheio de pelancas caídas sobre o short.
O aposentado Carlos Fernando Vieira vivia numa casa de vila no bairro de São Cristovão, na Zona Norte da cidade. Acordava cedo, tomava café, se arrumava e apanhava uma condução até a Praia de Copacabana. Na beira-mar, ele garimpava moedas, anéis, alianças, cordões e pulseiras que Iemanjá devolvia. Retornava para casa antes do meio-dia, almoçava, dormia e via televisão.
Carlos Fernando gostava do cheiro de leite azedo que exalava de suas próprias axilas. Cheirava, preferencialmente, a da esquerda. “É a do coração.” Doce rotina de um pacato cidadão.
Mas havia um segredo que titio guardava a sete chaves: um cofre escondido na parte de cima do armário. O homem alimentava uma compulsão para economizar, ainda que a aposentadoria lhe desse conforto suficiente para viver aquela vida de nenhum sonho e de muita sovinice.
Luciana notou os hábitos reprováveis do parente do marido e descobriu também o cofre, olhando pelo buraco da maçaneta da porta do quarto dele. Deliciava-se com a cena do velho seminu, sentado na cama, tomando banho de notas de todos os valores.
Tarso custou a concluir que o seu casamento corria perigo caso eles continuassem morando na casa de tio Carlinhos. Em vez de assumir um lar com todas as despesas, ele comparecia diante do tio com uma módica ajuda para as contas. Além disso, escalou Luciana para fazer a comida e a faxina diariamente. Ela por eles.
– Ficamos aqui até nos ambientarmos à cidade, amor. Assim, juntamos um dinheirinho e evitamos susto com o imponderável. Depois procuramos com calma um canto para a gente viver, algo que seja só nosso.
Ainda que reclamasse privacidade e tivesse a noção exata das possibilidades financeiras do marido de conquistar logo “algo que seja nosso, só para nós dois”, Luciana aceitou seus argumentos. Mas, ela tinha certeza de que aquela situação cheirava a tragédia.
As refeições à mesa eram desagradáveis, pois que os olhares descarados do parente na direção do seu colo a incomodavam deveras. Além disso, entre um “passe o feijão e, por favor, a carne”, ele esfregava a mão na dela. Num desses obsequiosos pedidos de passe isso e aquilo, o velho encostou a mão suja de frango no braço de Luciana. Ela precisou sair correndo da mesa a tempo de alcançar o banheiro para vomitar.
Os dias se passavam e a paciência da moça se esgotava. Sozinha, com o marido no quarto, Luciana disse que ficava constrangida com os modos pouco ortodoxos do tio à mesa. Mãos sujas na comida, arroto e gazes sem demonstrar qualquer sinal de respeito com os hóspedes.
Tarso contemporizava.
– É apenas um velho solitário chamando a nossa atenção, amor. Logo nos livraremos dele. Peço calma, mais uma vez. Estou com problemas no Ministério e preciso me concentrar em questões mais importantes.
“Questões mais importantes. Esse idiota acha que esse velho me comendo com os olhos é menor do que aqueles corruptos roubando no Ministério?”
A tragédia que envolveria aquela família nada cristã, porém, estava anunciada. Aconteceu no dia em que tio Carlos Fernando exauriu de vez a paciência de Luciana e ela resolveu mostrar ao velho que é mais do que um rostinho bonito.
Dois dias depois de Luciana reclamar da situação com o marido, titio ficou mais um pouco na cama e se levantou por volta das onze horas. Naquele dia ele deixou de ir a Copacabana para garimpar. A manhã, contudo, correu sem sobressaltos. Luciana e o velho passaram calados, mas ele grudou os olhos nela. Isso a incomodou, sobretudo quando ficou de costas. Nesse clima de tensão, a moça arrumou a casa e, ao meio-dia, anunciou que a comida estava pronta.
Entre uma garfada e outra, Luciana folheou uma revista, sem olhar para o lado ou para frente. Carlos não tirou os olhos dela e chegou a errar várias vezes o trajeto do garfo até a boca, jogando comida sobre a toalha e no chão. Depois do almoço, Carlinhos seguiu para o quarto. Vestiu calça e camisa, calçou sapato e avisou à sobrinha que iria ao banco. Luciana enfim respirou aliviada e ficou como gostava: sozinha.
Ela arrumou a cozinha e depois também se trancou no quarto. Incomodada com o calor, trocou a saia por um short de lycra que lhe desenhou virilha e nádegas. Por cima da pele muito clara, apenas uma camiseta branca e confortável que contornou os seios pequenos e consistentes. Assim voltou à sala e se jogou no sofá.
Com os pés sobre a mesa de centro, enquanto acendia um cigarro e estalava o lacre da lata de cerveja, ela apontou o controle remoto na direção da televisão.
Os cabelos soltos e a ausência de maquiagem lhe davam ar ainda mais sensual. Relaxada, porém, ela não viu que Carlos a observava. Titio chegara pelos fundos sem fazer barulho e ficou parado na porta que separava a sala da cozinha. Ali permaneceu, sabe-se lá por quanto tempo. Quando ela o viu, ele abriu um sorriso mais do que maroto no canto do lábio, satisfeito por poder contemplar, sem censura, tantos e tão desejáveis atributos.
Luciana se assustou e, constrangida, tratou de se recompor. Jogou os pés no chão, soltou o controle remoto sobre a mesa e tentou esconder o cigarro. Sua vontade era engolir a cerveja com lata e tudo.
Estava armado o cenário da grande tragédia. Havia de um lado um Carlos Fernando disposto a dar vazão ao seu desejo incontrolável de amar aquela mulher, e do outro, alguém com absoluta indisposição para tanto.
A temperatura ambiente subiu à estratosfera. Titio sentiu uma vontade enorme de ficar nu e de pedir que ela o acompanhasse. A excitação lhe transpôs os sentidos a ponto de subtrair a razão e multiplicar o desejo.
A situação ficou incontrolável. Da parte dele, pela determinação de matar ou morrer para tocar aquele corpo como sempre desejou, ou seja, com as duas mãos e os olhos fechados. Dela, apenas de matar para evitar que as mãos peludas e com cheiro de frango assado, que viviam enfiadas dentro da cueca e do nariz, encontrassem seus seios formosos e delicados.

Caruguraci: Cidade solidão. Nas versões e-book e impressa

O Meu livro, Carugurací: cidade solidão, está na segunda edição. Agora também na versão e-book. Assim, quem preferir ler no ipad, pode acessar um dos links abaixo. Quem optar ainda pela versão impressa, é só clicar no último link e falar com a Editora Lexia.
 
Grato




(livro disponivel em todos os outlets da Amazon na Europa, USA, Brasil, Japao)

 



(livro disponível em todos os outlets da Apple na America do Sul, USA, Brasil, Europa, Asia, etc)

Versão impressa: