Por: Joaquim São Pedro
- Você já me traiu?
- Que conversa é essa, Clayton?
- Me diga, já me corneou?
- Eu, heim... A gente acorda e ao invés de ouvir um bom dia, recebe pela cara uma pergunta dessas...
- Vai responder?
- Meu amor, olha pra mim. Nós estamos aqui, na nossa cama, acabamos de acordar. Você nem me dá um bom dia. Nem comenta que ontem tivemos uma noite maravilhosa.
- Por favor, eu não ligo. Estamos juntos há dez anos...
- Clayton, meu bem, pare com isso!
- Só fiz uma pergunta.
- Idiota! Pergunta idiota, meu amor.
- Por que idiota? Perguntas idiotas, respostas demolidoras. Pelo menos é o que me disse um jornalista amigo. Ele me contou que das perguntas mais bobas saem as melhores respostas.
- Sei, Clayton.
- Mas isso é o de menos. Quero saber se você me traiu algum dia. Isso não é uma pergunta idiota. Portanto, a sua resposta pode ser boba.
- Você está me chamando de boba?
- Não é isso, perguntei se você me traiu. Fiz uma pergunta complexa e inteligente. Você pode me dar uma resposta boba, afirmando que não.
- E se eu não lhe der uma resposta boba, mas uma resposta complexa e de difícil compreensão?
- Então está me dizendo que traiu.
- Não.
- Apenas fiz uma suposição.
- Diga, me traiu?
- Clayton, nós vamos nos levantar, abrir a cortina e descobrir que lá fora faz um lindo dia e que podemos aproveitar o sábado para ir às compras ou à praia.
- Vamos...Mas depois que você me disser...
- Meu amor, você está começando a ficar desagradável com essa sua obsessão.
- É simples: responda sim ou não.
- O que é traição pra você, Clayton? É desejar um homem atraente que passou na rua? É sonhar com um namorado da adolescência e acordar excitada? É sentir-se atraída por um colega de repartição? É...
- Foram tantos homens assim?
- Só rindo, Clayton. Você às vezes é de uma infantilidade irritante.
- O seu subconsciente acabou de lhe trair e você nem percebeu.
- Vamos nos levantar, amor. Vamos tomar um banho juntos. Adoro você me pegando debaixo do chuveiro. Depois, peço à Clô pra fazer um café bem gostoso. Sabe aqueles ovos mexidos de que você gosta?
- Não, não sei. Deve ser outro que gosta de ovos mexidos. Eu detesto cheiro de ovo.
- Meu amor, você está apenas obcecado pelo meu adultério ou louco mesmo?
- Adúltera! É isso mesmo, você é uma adúltera. E eu sou o corno.
- Cruz credo, Clayton. Você não pode estar bem. Dorme um pouco mais, amor. Mais tarde eu acordo você e a gente vai fazer alguma coisa. Vamos ao cinema?
- E se eu não for? Você vai sozinha ou com algum dos seus amantes?
- Clayton, me respeite. Essa sua obsessão está passando dos limites. Vamos nos levantar.
- Pode ir. Vou contratar um detetive para seguir você.
- O quê? Você endoidou de vez? Pare com isso, Clayton.
- Tá com medo?
- Medo de quê, homem?
- De eu descobrir que você me traiu?
- Não, não tenho medo. Tô começando a ficar preocupada com essa sua insistência. Vou levantar.
- Vai fugir.
- Fugir de que, homem? Quero me levantar, aproveitar o sábado. É verão, meu bem. Vou à praia.
- Quer exibir o corpo para os futuros amantes, né?
- É isso mesmo, Clayton, quero oferecer o meu corpo a todos os homens, jovens, adultos e velhos de Copacabana. A Depravada de Copacabana.
- Eu sabia.
- Por favor, Clayton. Menos né? Vamos tomar café.
- Venha cá. Por que se levantou, onde vai?
- Sair deste quarto, porque eu preciso abrir a janela pra trocar o ar que está poluído pelos peidos que você deu à noite.
- Peidos? Eu? Veja quem fala. Ronca como uma porca.
- Mais respeito Clayton.
- Me traiu?
- O quê?
- Você já me traiu nesses dez anos de casados? Pode responder.
- Não Clayton. Não traí, enquanto fomos casados e veja que não me faltaram oportunidades.
- Ah, é? E por que recusou?
- Em respeito, Clayton. Por amor e respeito a você.
- Humm. Fui o primeiro?
- Claro que não, Clayton. Quando nos conhecemos eu já havia perdido a virgindade.
- Fui o segundo?
- Me poupe. Hoje você está insuportável. Acho que vou pegar o meu carro e vou subir pra Teresópolis. Volto amanhã à noite, tá bom? Assim você pode se acalmar.
- Fui o terceiro, então?
- Não Clayton. Houve três outros homens antes de você.
- Pervertida.
- Quatro homens, Clayton. Uma mulher que teve quatro homens em 37 anos de vida, com pelo menos 20 anos de vida sexualmente ativa, isso é perversão?
- O que é então?
- Sem comentário, Clayton. Você deveria ter me feito essa pergunta quando nos conhecemos e você disse que foi amor à primeira vista.
- Quando namorávamos você me traiu?
- Ah, pelo amor de Deus, Clayton. Deixa disso. Vamos nos levantar e tomar um café.
- Traiu?
- Traí. Quando nos conhecemos eu estava namorando. Por um tempo eu fiquei dividida entre você e o Rafael. Duas semanas depois que te conheci, terminei com o Rafael e nunca mais nos encontramos.
- Adúltera.
- Como queira, Clayton.
- Quero o divórcio.
- O quê?
- Divórcio. Não posso mais viver ao lado de uma mulher em quem não confio.
- Perdeu a confiança na manhã de hoje, meu amor.
- Claro, você acorda e me faz uma revelação dessa gravidade. Fui enganado esse tempo todo. Corno. Há mais de 15 anos, entre namoro e casamento, eu fui traído e não sabia. Imagino todo mundo rindo de mim pelas costas. Lá vai o corno de Copacabana.
- E você acha que é o único corno de Copacabana? Aqui tem um milhão de habitantes, meu bem. Nesse momento, tem homem à beça sendo corneado. Mais a mais você não é corno. Eu nunca o traí.
- Acabou de confessar, sua cínica.
- Não deturpe as minhas palavras. Eu disse que quando o conheci estava namorando com o Rafael , mas logo me afastei dele pra ficar com você. Compreende?
- Além de corno ainda tenho de ser compreensivo. Daqui a pouco vai me pedir perdão com a cara mais lavada do mundo.
- Pedir perdão? Tá louco? Não tenho do que pedir perdão. Quer saber de uma coisa, Clayton? Vou dizer alguns nomes de mulher e você vai confirmar se conhece ou não:
- Maria Amélia?
- Sim.
- Clarisse Lopes?
- Conheço.
- Regina Augusta?
- Claro, sua prima.
- Mona.
- Mona?
- Monalisa Tertuliano. Filha do seu chefe.
- Claro. Fomos a várias recepções na casa do Doutor Dornelles.
- Didi.
- Didi?
- Diana Feitosa.
- Conheço. O que você quer com todos esses nomes?
- Só uma coisa, meu bem. Você comeu todas elas.
- Mentira.
- Não é mentira, amor. Vou explicar por quê: você tem uma turma que joga futebol?
- Sim. Todas as quartas, no Fluminense.
- Depois vão tomar cerveja no Largo do Machado?
- É verdade, você já passou por lá pra me apanhar.
- Quanto são os seus amigos que jogam futebol e depois vão tomar cerveja com você?
- Uns cinco ou seis. Regularmente, cinco.
- Quem são? Roberto, Ravier, Jair Carlo, Rogério e Demerval. De vez em quando o Ataliba aparece. Mas é raro. Outro que vai pouco...
- Não precisa mais, meu bem. Entre esses seis que batem ponto na cervejada tem um que me conta tudo o que vocês conversam. E sabe por que ele me conta?
- Não, por que, sua pervertida?
- Porque ele tem esperança de que um dia eu levante a saia pra ele ver minhas calcinhas.
- Louca.
- Louca? Eu? O seu amigo é que é um tarado, um pervertido. Compreenda, meu bem. Um desses atletas que bebem com você me faz juras de amor, me faz propostas indecorosas, diz que me dá o que eu quiser só para eu levantar a saia pra ele me olhar. Ele não quer me tocar, só olhar.
- Louca!!!
- Louca? Eu concordei em levantar a saia pra ele um dia se ele me contasse todas as conversas que vocês têm depois do futebol. Ele acha você um babaca, um exibido. Toda semana tem um nome de mulher que você comeu. Quer saber? Até com a mulher do seu chefe, o Dornelles, você se deitou. E olha que ela está com mais de sessenta. Eu é que sou a pervertida?
- Mentira.
- Quer ver as fotos? As fotos que você mesmo fez no motel com a velha só pra se exibir com a sua turma? Quer que eu mostre? O seu amigo tirou cópia e me mandou.
- Isso é mentira.
- Eu nunca traí você, seu idiota. Nem com o Rafael. Quando nós nos conhecemos, aceitei sair com ele pra uma despedida, mas não rolou. Ele estava tão bêbado que dormiu em cima de mim. Foi assim que terminei com o Rafael definitivamente. Só pensava em você. Eu me apaixonei logo. Mas era jovem, inexperiente. Saí com o Rafael...
- Chega!
- Chega? Desistiu do divórcio?
- Estava blefando.
- Pois agora, eu quero o divórcio.
- Que bobagem, meu amor.
- Bobagem, Clayton. Bobagem, seu machão chauvinista. Ridículo. Você se considera o maior garanhão do pedaço. O fodão do Bairro Peixoto. O cara...
- Não me acho nada.
-Mas vai achar. Vai ter de dizer aos seus amigos que nos separamos.
- E daí?
- E por que nos separamos?
- Ora, você é que está pedindo o divórcio.
- Não, você pediu. E pediu porque eu traí você. Vai dizer isso à turma do futebol. Quero ver você dizer. Depois o seu colega de cervejada, que joga bola com você e se finge de amigo, corre pra me contar tudo.
- Vou parar de jogar futebol.
- Por quê, amor? Futebol é tão bom pra saúde.
- Não vou mais à cervejada.
- Que pena. O seu amigo, que vive louco pra eu levantar a saia pra ele, vai sentir a sua falta. Ele vai ficar frustrado.
- Vamos tomar café, meu bem.
- Vá você, Clayton. Eu vou ligar pro doutor Xavier e pedir que comece a correr a papelada do nosso divórcio.
- Que bobagem.
- Ah, o Fodão do Bairro Peixoto está chorando. Coitadinho, que peninha. Tão machão, tão gostosão. Tão fogoso, não deixa passar uma mulher.
- Por favor, amor.
- Por favor? Vá, Clayton, vá tomar o seu café. Eu vou ligar pro doutor Xavier e vou em seguida. Aliás, vou tomar café e viajar.
- Vai pra onde?
- Qualquer lugar, meu bem. Qualquer lugar longe de você. Liberdade! Acabei de conquistar a minha liberdade. Preciso comemorar. E olha que comemoração com companhia, principalmente masculina, é mais gostoso. Adeus, meu amor.
Fim
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