Por Joaquim São Pedro
A calcinha da Izildinha estava pendurada na porta do box do banheiro e quando bati o olho nela, não tive saída: eu me apaixonei. Estava hipnotizado quando fechei a porta atrás de mim e até me esqueci momentaneamente do que tinha ido ali fazer: xixi, obviamente eu me lembrei depois.
Fiquei um tempo olhando, encantado, para a peça íntima, de cor branca com delicadas flores vermelhas. Linda, pelo tamanho, dizia-me que a sua dona era uma mulher pequena, magra e, feeling, muito delicada.
Eu olhava algo muito pessoal de alguém que eu nem conhecia. Foi meu primeiro e inesquecível contato, ainda que indireto, com Izildinha. Conhecia só o irmão dela, o Caio.
Nós nos falávamos na praia de Copacabana e, aos poucos, a amizade se consolidou. Mas sobre Izildinha eu só tinha ouvido falar rapidamente. Caio contou que ela estava recém separada, saindo de um casamento de dez anos e que, para reorganizar a vida, foi passar uma temporada em sua casa.
Eu não imaginava como Izildinha era fisicamente. Nunca tive essa curiosidade. Até o dia em que flagrei sua calcinha solitariamente pendurada na porta do box do banheiro da casa de Caio. Pela cor da pele do irmão, calculei que ela fosse morena como ele. Uma morena de cor jambo e mignon.
Já havia tanto tempo que eu estava no banheiro que Caio bateu na porta e perguntou se havia algum problema comigo. Fiquei constrangido. Sem jeito, eu disse que não e tratei de dar descarga e abrir a torneira para lavar a mão. Depois sai e quando estava na sala me dei conta de que não fizera xixi. Fiquei apertado. Não podia voltar. O meu amigo me consideraria maluco.
Daquele dia em diante Izildinha não me saiu da cabeça. Como poderia me interessar repentinamente por uma mulher que eu não conhecia e nunca vira? Só podia ser carência. Eu andava tão só, que até calcinha adandonada mexia comigo.
À noite eu e Caio fomos a uma boate. Encontramos duas amigas dele, mas a calcinha de Izildinha não me saia da cabeça. Enquanto dançava com Verônica, fiquei excitado. Ela percebeu e me arrochou. Só não imaginou que tanta excitação se devia à lembrança da imagem da calcinha de Izildinha pendurada na porta do box. E agora?
Verônica era uma mulher bonita. Àquela altura, no entanto, eu estava irremediavelmente fiel e apaixonado por uma calcinha.
“Eu me caso com Izildinha na hora em que ela quiser” - pensei enquanto dançava com Verônica.
A noite foi ficando entediante. Verônica era uma mulher bonita, mas snob. Gostava de contar vantagem. Soava arrogante. E não parava de falar da tal viagem que frizera pela Europa.
Fiquei sabendo de toda a sua vida em poucos minutos. Que havia comprado carro, apartamento e até ações.
“Se eu venho de família pobre e venci, todos têm a obrigação de vencer também” - ela discursou, em plena boite sob luzes neon.
Quando ela disse a frase, eu pensei:
“A noite acaba aqui. Vou dormir sozinho”.
Passava das três quando tocamos para a casa de Verônica. Caio nos deixou na entrada do prédio, em Ipanema, e levou Rosa, sua namoradinha, para dormir com ele. Quando o carro dobrou a esquina, Verônica me chamou para subir.
Recusei gentilmente, alegando cansaço, e me despedi dela ali mesmo.
“Até nunca mais” - eu tive vontade de dizer.
Queria mesmo era dormir no banheiro da casa de Caio e passar a noite namorando a calcinha da Izildinha.
Fui para a minha casa e passei a noite em claro. Fiquei pensando num jeito de raptar a calcinha da Izildinha. Ninguém perceberia. Afinal, a própria Izildinha tratou a peça íntima com desprezo quando viajou para visitar os pais em Guapimirim - cidade localizada no pé da Serra de Teresópolis -, e não a levou.
Quando viajamos, selecionamos sempre as roupas preferidas. Izildinha desprezou a calcinha branca de flores miudas e vermelhas. Pareciam pequenas rosas.
“Se a calcinha branca com flores vermelhas é a mais feia, como serão então aquelas que ela mais gosta”?
Só preguei os olhos quando amanheceu. Acordei às onze. Por volta do meio-dia liguei para o Caio. Rosa atendeu. Perguntei se iam à praia. Ela riu e respondeu que “ só no fim da tarde”.
O tom maroto de sua resposta deixou claro que a noite tinha sido pouco para o tanto que eles pretendiam ainda se divertir na cama. Conclui que os dois ficariam mais tempo juntos e a sós. Fiquei frustrado.
“Preciso ir até lá” - eu pensei – “e se a calcinha se sentir solitária e resolver se suicidar? E se ela se jogar lá de cima da porta do box e cair dentro do vaso sanitário? Tenho de salvá-la e adotá-la definitivamente.
Tomei uma decisão:
“Depois que eu resgatá-la, ela vai morar na minha gaveta de cuecas “ - eu decidi.
Passei o resto do dia frustrado, andando de um lado para o outro da casa. O noticiário da TV anunciou o jogo do Fluminense. Caio também é tricolor. Liguei. Ele atendeu.
“Vamos ao Maracanã? É jogo decisivo. Se o Flu ganhar deixa a zona do rebaixamento” - ele observou.
“Em seguida tomamos um chope no Baixo” - eu arrematei consciente de que resgatara o meu amigo dos braços da insaciável Rosa.
Caio topou. Vibrei.
Antes que Caio desligásse, lembrei do meu talismã. A camisa do Flu que usei em todos as 37 rodadas do campeonato. Eu a emprestei pra ele e não a vi mais. Não poderia deixar de usá-la na última rodada. Aquela em que o meu time corria sério risco de rebaixamento e precisava de todas as foças, até as sobrenaturais.
Mas Caio me decepcionou.
"Está na lavanderia" - foi como um balde de água fria. Mau presságio. O meu time corria risco real de cair para a segunda divisão. Novamente. Fomos assim mesmo. Eu fique pessimista. Mas não podia atrair maus fluídos. Mudei de assunto.
“E Rosa?” - eu quis saber.
Para minha surpresa, ele a desqualificou:
“Gosto dela, mas é pegajosa, já foi embora. A mulher já está se achando dona do pedaço” - ele contou.
Caio é um amigão, mas tem o defeito de desqualificar as mulheres depois de “usá-las”. Mas um dia ele aprende como tratá-las. Acho que vai sofrer muito até aprender. Mas vamos em frente.
Com Rosa fora da agenda, eu poderia voltar a freqüentar o banheiro da casa de Caio para namorar a calcinha de Izildinha.
À noite nos encontramos em frente à Estátua do Beline. Vimos o jogo e vibramos com a vitória do Flu. Era a garantia de que nosso time continuaria na primeira divisão no ano seguinte. Fomos comemorar.
Caio estava entediado, mesmo depois de ter trepado a noite e o dia todo, de ter dispensado a gata e da Vitória do nosso Flu. Eu dormi no zero a zero, mas feliz por ter encontrado o verdadeiro amor da minha vida, ainda que personificada numa calcinha.
Estava definitiva e incorrigivelmente apaixonado pela primeira vez na minha vida. A calcinha de Izildinha seria a minha companheira pelo resto da vida.
“Eu vou jurar amor e fidelidade eterna no altar” - decidi.
O papo sobre futebol ficou animado e Caio melhorou o astral. Na hora que eu ia encadear umas perguntas sobre Izildinha, ele recebeu telefonema de Rosa. Mais uma vez, o meu amigo anunciou que me deixaria sozinho. Fiquei frustrado.
“Vou ficar mais um dia sem ver a calcinha da Izildinha. Não sei se resisto” - conclui.
Antes de ele sair, no entanto, me surpreendeu:
“Vai lá pra casa e me espera. Vou passar no apartamento de Rosa, mas não quero ficar muito tempo”.
Depois chegou bem perto do meu ouvido e confessou:
“Vou dar trepadinha rápida e me mando. Ela é gostosa, mas é muito chata”.
Esse é o meu amigo Caio! Grande figura humana, mas um pulha em se tratando do sexo feminino.
Apanhei a chave e parti para a casa do Caio. Sai pensando:
“Chego lá, me tranco no banheiro e me caso com a calcinha da Izildinha. Comunhão de bem. Na alegria e na tristeza”.
Tomei um táxi. Tinha pressa. Cheguei no saguão do prédio onde Caio morava e o Severino, porteiro botafoguense, me cumprimentou pela vitória do Flu e foi logo dizendo que o Caio tinha saído.
“Eu sei Severino, estava com ele no Maracanã”.
Severino ia dizer mais alguma coisa, mas o elevador chegou e eu subi sem lhe dar ouvido.
Cheguei ao sexto andar, abri a porta do apartamento de Caio e entrei. Estranhei que a luz da cozinha estava acesa. Caminhei mais alguns passos e percebi um barulho de gente mexendo em panelas. Foi quando dei de cara com uma morena linda, de cabelo preto, nariz fino, seios pequenos um olhar triste, mas enternecedor.
“Quem é você”? - eu quis saber.
“Eu que pergunto” - ela devolveu intrigada.
“Eu sou amigo do Caio”.
“Eu sou a irmã”.
Arregalei os olhos:
“Izildin.., digo Izilda??”
“Sim”, você me conhece?”
Tive vontade de dizer que mais do que ela imaginava e que já a amava mais do que a mim mesmo. E mais: que estava prontinho para casar com ela em comunhão de bens. O que significava que a calcinha, aliás, todas as suas calcinhas seriam minhas também.
O meu coração disparou.
“Caio me falou de você” - eu puxei assunto.
“Pois é, me separei e estou morando aqui por uns tempos”.
“E como está Guapimirim?”
“Tudo bem” - ela respondeu num tom meio triste, o que me despertou vontade de oferecer solidariedade e ombro.
“Você conhece a minha cidade?” - ela prosseguiu.
“Ainda não, mas o Caio me falou das cachoeiras, do calor, da moçada bicho grilo e da parte histórica” - resumi.
“É uma cidade agitada” – ela acrescentou já tirando do rosto a expressão de tristeza.
“Tenho vontade de conhecer” – comentei, com uma enorme vontade de abraçá-la.
“Não deixe de ir” - ela emendou e, em seguida, mudou de assunto:
“Onde está o Caio?” – ela quis saber.
Eu disse que tínhamos ido ao Maracanã, mas que depois ele recebeu telefonema de Rosa e que foi encontrá-la.
“Rosa? Ele vive falando mal dela, mas não desgruda” - ela denunciou - o que eu estava cansado de saber - e riu.
A risada de Izilda me balançou de vez. Eu já não cabia em mim de excitação e desejo por aquela mulher.
“Como eu sou volúvel”, - eu pensei – “há dois segundos estava apaixonado pela calcinha dela, agora parece que vou me apaixonar pela risada também”.
“Posso ir ao banheiro” - eu perguntei de supetão e corei de vergonha. Depois fiquei me perguntando por que pedi permissão e não anunciei apenas que iria ao banheiro. Idiota.
Estava excitado, desejoso de tocar aquele corpo e muito nervoso. Izilda percebeu o meu desconforto e riu de mim. Deve ter pensado:
“Como negar?”
Imagine se ela diz:
“Sinto muito, mas não pode, porque lavei todas as minhas calcinhas e coloquei para secar no banheiro”.
Eu me urinaria. Mas ela foi generosa e apenas riu da bobagem que falei. Fui e, para a minha decepção, constatei que a calcinha dela não estava mais por lá.
“Será que se suicidou, saltando da porto direto para o vaso sanitário?” – “Coitada”.
Fiquei lá imaginando com os meus botões onde poderia ter ido parar a calcinha da Izildinha que até esqueci o tempo.
“Demorei tanto tempo para voltar que a calcinha ficou desiludida” - conclui.
Aí me trai quando chamei por ela em voz alta:
“Calcinha, calcinha!”.
Izilda respondeu do lado de fora do banheiro, como se eu tivesse me dirigido a ela:
“Você chamou?”
“Ih. A Izilda está pensando que falei com ela. Estou ficando louco” – pensei.
Arrisquei dizer qualquer coisa.
“Izilda??!! você faz o quê?”
Que ideia louca. Mais uma pergunta idiota, fora de contexto. Como pode alguém Conversar com outra pessoa, que mal acabou de conhecer, com uma porta de banheiro a separá-los.
Mas, para minha surpresa, a conversa evoluiu.
“Eu sou arquiteta” – ela revelou.
“Que legal?” - eu comentei, sem saber o que dizer em seguida.
“E você?” - ela me salvou antes que enfiasse a cabeça na privada e puxasse a descarga.
“Eu? Eu sou escriturário”.
“Bacana” - ela elogiou.
O “bacana” dela me intrigou. Como alguém pode considerar bacana um cara ser escriturário. Bem, há gosto pra tudo. Mas, eu conversava com ela parado na frente do vaso e não conseguia urinar.
“Tenho um amigo escriturário, que ficou rico” - ela acrescentou.
Tratei de mudar o rumo da prosa. Não era o momento certo de discutir fórmulas de escriturários ficarem ricos.
“Você...”, - eu ia dizendo quando a porta do banheiro se abriu.
“Posso entrar?” - ela perguntou já entrando.
Quando eu percebi, Izildinha estava dentro do banheiro. Depois de me olhar com olhos de desejo e sorriso maroto, ela virou, trancou a porta por dentro e ficou de frente pra mim.
Meu coração disparou. Izilda observou nada constrangida quando eu, puro constrangimento, resgatei o meu pênis para dentro da calça e fechei o zíper.
Recomposto, me senti um pouco menos constrangido. Ela, com muita tranquilidade e segurança, tirou a blusa por cima da cabeça e depois abriu o zíper da saia jeans, que caiu sobre seus pés.
Arregalei os olhos quando a vi só de calcinha. Aí descobri finalmente onde se achava a calcinha, a minha namorada, aquela que eu fui ao banheiro para encontrar e resgatar. Estava no corpo dela.
Caiu-lhe tão bem, que imaginei: foi desenhada e costurada exclusivamente para ela.
Izildinha me encarou e perguntou:
“O que você tanto olha pra minha calcinha?”
“É linda” – devolvi, excitado e nervoso.
Foi quando ela me ganhou de uma vez por todas:
“Posso te confessar um coisa?”
“Você pode tudo” - eu disse, percebendo que as coisas por dentro de mim começavam a ficar no lugar e eu começava a ficar mais à vontade.
Ela então falou:
“Eu gosto tanto desta calcinha que abreviei a minha volta de Guapimirim só para vesti-la. Fiquei de lá imaginando o tempo todo que a esqueci pendurada ali – disse apontado para a porta do box - sozinha”.
Eu olhei fixo para aquela linda mulher seminua à minha frente, conferi com os olhos que a maçaneta da porta estava trancada, e nunca mais fui tão sincero nas minhas confissões:
“Eu te amo, Izildinha”.
Ela deu um sorriso meigo, o que a deixou mais sexy, chegou ainda mais perto e me abraçou. Depois, ela escorregou as mãos pelos meus cabelos, me beijou com lábios molhados e gemeu ao encostar seus seios rijos no meu peito.
Por fim revelou:
“Eu também te amo, Juca. Desde o dia em que você esqueceu aqui em casa a sua camisa do Fluminense e eu senti o cheiro do seu suor" - ela disse e me ganhou definitivamente.
FIM
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