Por: Joaquim São Pedro
Jurandir Cardoso, 42 anos, era um solteirão. Pouco mais de 1,70m, ele pesava 85 quilos. A calvície pronunciada e a barriga saliente denunciavam sua pouca vaidade. Num dia de semana, que poderia ser uma terça-feira, ele chegou em casa depois de mais um dia de trabalho.
Eram tempos de muito baixo astral. Não que houvesse períodos de alto astral na vida dele, porque o seu astral nunca deixou de variar de médio para baixo.
Num estado de ânimo, portanto, pouco recomendável, Jurandir chegou à conclusão de que a vida não tinha graça. Por isso, conformava-se com tudo à sua volta.
Um frustrado, por assim dizer. Mas ele sofria por causa da sua incapacidade de reagir. Vivia um ciclo vicioso no qual ele não pediu para entrar, mas, uma vez dentro, nunca se esforçou para sair. Não que lhe faltasse oportunidades. Até houve algumas. Mas diante de todas elas, o rapaz sucumbiu.
Jurandir morava num apartamento na Rua Domingos Ferreira, em Copacabana, bairro mais famoso do mundo, na cidade do Rio de Janeiro, com vista para a parede de fundos de um prédio que tinha vista para o mar.
Desmotivado, ele relaxou na arrumação da casa que recebia muito pouca luz natural. Por seu desleixou e pelo constante mofo, um cheiro de morrinha lhe atingiu o rosto como um bafo quando ele abriu a porta da sala e entrou.
Mas como cheiro é coisa que se acostuma, sua frustração deu-se por não vir recebê-lo saltitante e lambedor o cachorro que ele nunca teve, mas que sempre quis ter. Assim, ele entrou, olhou ao redor, jogou a pasta sobre o sofá, soltou o nó da gravata e o cinto da calça que apertava sua barriga flácida.
Em seguida ligou a televisão e deu um suspiro de desânimo. Caminhando sem rumo pela minúscula sala, ele chegou à janela. Ali, bem que tentou, pela milésima vez, ver nua a vizinha loura, de mais ou menos 30 anos de idade, que morava sozinha, mas que nunca andou nua ou trocou de roupas com a janela aberta.
Decepções aos borbotões, Jurandir decidiu tomar um banho. Depois vestiria o pijama, calçaria pantufas e se acomodaria na frente da TV para ver a novela. Assim terminaria o dia de um homem que havia muito sentia-se abandonado. Um sujeito desinteressante, recluso e indisposto ao convívio social.
Mas Jurandir falava com a mãe ao telefone todos os dias. Ela ligava quando terminava a novela, para saber como foi sua jornada no trabalho, mas também para saber dele o que achou do capítulo que acabara de assistir.
Naquele dia, porém, dona Glorialda não ligou por algum motivo, talvez uma viagem, mas alguém ligou por que o telefone tocou. Jurandir achou que fosse sua mãe, porque não foi avisado que talvez ela estivesse viajando, e correu para atender.
- Alô! – ele exclamou – da mesma maneira como exclamam as pessoas quando atendem um telefone.
- Alô, quem fala? – quis saber uma voz feminina do outro lado da linha, revelando que não era dona Glorialda. A pessoa estava ansiosa, embora tivesse um tom de voz bem amistosa.
- Quer falar com quem, minha senhora? – respondeu um formal Jurandir, depois de perceber que não se tratava de sua genitora.
- Eu gostaria de falar com o Juca – a mulher confirmou.
Jurandir continuou formal:
- Juca? Aqui não tem Juca, dona.
A pessoa do outro lado da linha tinha pouca informação e juntava fragmentos de uma história antiga para tentar chegar ao presente do personagem que procurava:
- Bem, faz muito tempo. Acho que ele tem outro nome, mas só me lembro de Juca – ela explicou.
Jurandir errou na informação, mas acabou ajudando-a a encontrar o que procurava:
- Bom! meu nome é Jurandir, mas ninguém me chama de Juca, moça.
A voz feminina então elevou o tom e disparou:
- Eu chamo, porra! – o grito de alívio por ter encontrado quem procurava justificou sua euforia.
Aliás, achou, não. Desenterrou. A mulher que logo se identificaria, procurava uma pessoa, cujas únicas referências que tinha, depois de tantos anos de distância, eram o número do telefone e o apelido carinhoso com o qual ela a tratava quando conviveram.
Agora menos eufórica, ela tratou de refrescar a memória do solteirão:
- É isso mesmo, Jurandir. Só eu te chamava de Juca. Lembrei agora, é Jurandir Cardoso. É isso? – ela pediu confirmação.
Era. Mas Jurandir ficou um tempo em silêncio. Perguntava-se o que significava tudo aquilo. Uma interferência brusca em sua monôtona rotina:
- É o Juca ou não é, porra? – a voz feminina insistiu, abusando dos palavrões.
Finalmente, ele voltou à conversa:
- Bom, se você diz que me conhece por Juca, sou eu mesmo. Mas eu e o “eu Juca” nunca fomos apresentados – ele devolveu, revelando-se irônico e curioso.
- Engraçadinho! Já se esqueceu de mim, né? – A voz feminina ficou, de repente, mansa e sedutora.
E Jurandir, impaciência.
- Mim quem, moça?
Finalmente, ela se identificou. Daqui pra frente a conversa tomará novo rumo. Perigoso, diga-se de passagem:
- A Ana, de Nova Friburgo. Ana Cristina. Nós namoramos, lembra? Você estudava contabilidade, eu, medicina. Já faz tempo, né? Anos 80.
Jurandir, o Juca da Ana, finalmente conseguiu refrescar a memória e se lembrar da ex-namorada de Nova Friburgo. A estudante de medicina com quem teve um affair na juventude. Inesquecível para ela. Esquecível para o próprio.
Localizado, ele não entrou no clima de euforia da moça. Sentiu foi uma tremenda angústia e uma vontade de que aquela ligação não o tivesse alcançado tão desprevenido.
Contudo, acabou se rendendo, confirmando uma tendência natural do ser humano de se render ao perigo:
- Claro que me lembro. Isso tem pelo menos vinte anos – disse.
Finalmente ele havia dado conta de quem era Ana Cristina, a ex-namorada, então futura médica, e juntava na memória os fragmentos de uma passagem, que foi especial, mas que as circunstâncias e o tempo arquivaram no baú da memória.
Àquela altura da conversa, Ana ficou mais calma:
- Eu me formei e eu fui embora. Fui para a Europa. Passei um tempo em Paris, depois morei em Londres, Amsterdã, Munique.
De repente, uma pergunta simples de fazer e complexa de responder:
- E você?
Jurandir não tinha o que contar. Sua vida ficou pelo meio do caminho. Manifestava emoções diante da TV ou quando sua mãe falava da morte de algum parente distante. No trabalho, nenhuma, já que escriturar livros e bater carimbo, definitivamente, não o emocionava fazia tempo.
Ele criou uma rotina de poucos movimentos. Difícil de errar. Mecanismo de defesa por sua insegura. Mas, agora, ele precisava sair do casulo. E foi sincero.
- Eu fiquei aqui mesmo, Ana – disse. E devolveu:
- O que você fez lá pela Europa?
Ana Cristina, por sua vez, abriu o coração:
- Nunca exerci a medicina, Juca, e fui fazer cinema.
Ele a interrompeu e quase entrou no clima:
- Cinema? Bem diferente. Atriz! – ele arriscou.
- Direção, cara. O máximo, good.
- Que joia! – disse Jurandir, usando uma expressão da sua juventude. Foi uma volta ao passado, já que tudo naquele reencontro remetia ao passado.
“Joia” é uma gíria antiga, muito usada nos anos 70 e 80, um período em que Ana e Juca tinham vinte e poucos anos e abusavam da expressão. Mas Jurandir sentiu-se ultrapassado ao pronunciar a palavra no presente, principalmente porque Ana disse um “good” com muita segurança. A expressão inglesa é cult, portanto, não sai de moda. Já a tal joia...
Jurandir ficou em silêncio e chamou a atenção de Ana:
- Juca, você ainda está na linha?
Ele deu sinal de vida:
- Sim, Ana.
- Ficou mudo de repente. Tudo bem com você? Tá triste?
- To bem. Não se preocupe.
- É. Foi joia mesmo, cara. A Europa me deu uma bagagem enorme. Aprendi muita coisa e acho que, em breve, você vai ouvir falar de mim. Meu filme tem tudo para arrebentar.
Chamou a atenção de Jurandir o fato de Ana também usar a expressão “joia” para frisar sua admiração pelo Velho Mundo. Ele pensou: das duas, uma, ou era tão ultrapassada quanto ele ou estava caçoando do seu interlocutor.
O silêncio de Jurandir incomodou mais uma vez:
- Juca? Parece que você não quer conversar comigo, cara. Fica mudo de repente. Lembrou-se de mim de verdade?
O ânimo de Jurandir oscilava:
- Claro, que me lembrei, Aninha. Desculpe, mas é que fique muito surpreso com a sua ligação. Que bela surpresa, é claro.
O rapaz tentava percorrer o perigoso caminho da descontração. Uma imprudência para uma pessoa cronicamente angustiada. Algo que lhe era muito desgastante e impossível de sustentar.
Ana o surpreendeu:
- Faz o seguinte, Juca. Vem me ver? Estou na cidade e poderíamos conversar pessoalmente.
- Na cidade? Você está no Rio? Conversar pessoalmente?
- Fica me repetindo, porra. Isso mesmo, cara! Vem pra cá. To no Baixo Leblon, tomando uma cerveja, no Jobi. Chega mais! Quero te dar um grande abraço.
Ele foi impulsivo:
- Tudo bem, eu vou!
Ela foi impulsiva:
- Então, vem logo, gostosão. Vamos conversar. Onde você mora?
- Em Copacabana.
Outro impulso feminino:
- Vem tomar um chopinho comigo. Vamos matar a saudade, lembrar aqueles tempos. Depois a gente vê como é que fica.
Ele protelou:
- Você voltou a morar no Brasil?
Ana não percebeu:
- Não, volto para a Europa daqui a duas semanas. Ficarei só uns dias aqui no Rio. Vou a Búzios na semana que vem e depois me mando para Goiás. Vou ver meus pais que se mudaram para Pirenópolis, uma cidade goiana que é muito astral. Você conhece Piri?
Juca ganhou de graça uma oportunidade de exercitar a humildade. Afinal, nada conhecia deste país e nem tinha razão para mentir. Mas ele não aproveitou, já que juntou verdade e mentira numa única frase:
- Não, ainda não. Viajei muito para o Sul e o Nordeste.
Ela não percebeu:
- Você vai amar quando conhecer aquela cidade. É a mais linda do Centro-Oeste, cara.
Ele experimentou seu lado galã:
- Você falando assim, já fiquei excitado e com vontade de conhecer.
- Então, vem pra cá. Vou te falar da Europa e depois de Pirenópolis. Vou te contar como os meus pais saíram de Nova Friburgo e foram parar no interior goiano. Foi por causa do pequi, cara.
- O que é pequi?
Ela espantou-se:
- Não sabe?
Depois foi enigmática:
- Só revelo se vier me ver. Vou te ensinar a fazer uma galinhada com pequi que é de babar.
- Detesto cozinhar, Ana – ele disse do nada. Ela aceitou a discussão e o surpreendeu:
- Que bobagem, é terapêutico. Na Europa é hábito. Nós nos reunimos na casa de um amigo e ficamos bebendo vinho, ouvindo música clássica e conversamos na cozinha, enquanto o dono da casa faz a comida. É muito divertido.
- Mas você vem me ver, Juca? Ela voltou à carga:
Ele tornou a ser impulsivo:
- Vou sim. Acabei de chegar e vou tomar um banho meteórico. Em vinte minutos apareço por ai. Quero saber mais sobre pequi, heim!
- Beijo!
- Beijo!
Depois daquele “beijo”, Jurandir, como uma galinha que chega ao telhado, desencontrou-se de suas limitações e pensou que pudesse voar. Mas a consciência prontamente o chamou de volta e o obrigou a descer lá de cima, antes que caísse e se esborrachasse no chão:
“Chego por aí! Chego por ai em 20 minutos!” Como você diz isso, seu idiota? Você tem carro por acaso? Se for, vai de ônibus. E indo, vai fazer o que por lá? Olha pra você, Jurandir. Ela era a garota mais bonita da faculdade, te deu uma canja. Foram só uns dias de namoro, umas duas ou três trepadinhas. Depois disso, ela te deu um pé na bunda, te esnobou e foi ficar com o DJ Jamanta. A moça foi embora, foi morar na Europa. Velho Mundo. Berço da civilização. O que você fez, Juca? Ficou aqui. Abandonou a faculdade, arranjou emprego num escritório de contabilidade e sentou praça. Quanto tempo perdido, quantas oportunidades jogadas fora. Você vai fazer o que no Jobi? Bar de playboy zona sul. Garotões bem vestidos, cabelos compridos e clareados com parafina. De garotinhas calça apertada, umbigo à mostra, falando de praia, cinema, maquidonaldi. Você é cafona, desatualizado. Não tem argumento para meia hora de conversa. A gostosa vai te contar de Paris, do Louvre, da torre, dos cafés ao ar livre. Você vai falar pra ela do Forró Forrado, do chope do Largo do Machado. E que história é essa de conheço mais o Sul e o Nordeste? Só se for o Sul da Baixada Fluminense e o Nordeste de Niterói. Tenha paciência, Jurandir! Tenha um pingo de vergonha na cara. Ela deve estar linda, com 37, 38 anos. Um mulherão. Madura. Liberada. Gostosa. Anda sem sutiã. Não usa calcinha. Exala sensualidade por todos os poros. Diretora de cinema, culta, divertida, bebe, fuma, cheira. Interessante, muito descolada. Ela vai dar uma cruzada de perna na sua frente, depois de acender um cigarro, só pra te derrubar da cadeira. Você vai fazer o que lá, Juca? É uma mulher do mundo, engajada, entrevistou o Mitterrand e o Sartre, jantou com o Zidane e o Platini, para produzir um documentário sobre as celebridades francesas do século XX. Você vai contar o quê pra ela? Nada, nada a declarar. Não tem jeito. Não vá, sujeito. Fica em casa, esqueça essa moça. Melhor fingir que ela não ligou. Desliga o aparelho da tomada. Liga antes pra sua mãezinha, pede que ela conte o capítulo de hoje da novela. Só não fale da Ana, porque ela vai ficar pensando que você é mentiroso. Se disser: “mamãe, uma antiga namorada da faculdade me ligou, é cineasta, mora na Europa e vem dormir comigo. Não é joia”? Ela vai responder: “você está inventando meu filho, mulher nenhuma te quer, com essa cabeça nas nuvens e esse mau hálito”. Mau hálito? Por que não disse logo, mamãe? Filho é sempre o último a ouvir as verdades que os pais pensam sobre eles. Viu como você não pode sair com uma moça fina?"
A impiedosa consciência de Jurandir acabou de dizer o que ele deveria e o que não poderia ouvir àquela altura de sua sofrida existência. Isso ferveu em sua cabeça. Diante dos fatos, de reflexões tão cruéis, ele deu sinais de que em pouco tempo entraria em pânico, o que invariavelmente resultaria num pulo de ponta cabeça da Ponte Rio-Niterói ou, o que é mais confortável, um fulminante infarto.
Assim ele entendeu que um desastre existencial, de enormes proporções, aconteceria num badalado bar da Zona Sul do Rio de Janeiro, caso resolvesse sair de casa e ir até lá rever uma ex e pop namorada.
Mas como tudo nesta vida tem dois ou mais lados, à exceção do ar, do fogo e da água, Jurandir entendeu que seria prudente ouvir o outro lado de sua consciência. Digamos o lado bom, aquele que vive sufocado pelo lado mau. Enquanto caminhava para o banheiro, ele conversou consigo mais uma vez:
“Vai, Jurandir, conte as novidades, coloque a conversa em dia. Fale da sua trajetória de vida, como os anos se passaram, até aqui. Peça que ela fale em detalhes dos caminhos percorridos. Depois, quando ela quiser saber de você, desconver e insista para que ela conte mais novidades. É um exercício de humildade, um mecanismo de defesa e que acaba sendo interpretado como sabedoria. Ouvir mais e falar menos. Confesse que nunca foi à Europa. Admire-se das coisas que ela contar, surpreenda-se com as novidades, faça perguntas, ainda que bobas, e insista para que ela tome a maior parte do tempo falando. Enquanto isso, beba para descontrair. Depois diga que trabalhou muito todo esse tempo, que viajou pouco, que teve dificuldades para estudar, que ajudou parentes mais necessitados. E, quando ela insistir mesmo em saber mais de você, conte a verdade. Diga que trabalha num escritório de contabilidade, que adora a profissão de escriturário. Dê detalhes de como é morar só. Mas não conte que sonha ver nua andando pelo apartamento ao lado, de janela aberta, a vizinha que nunca andou nua no apartamento ao lado. Mas surpreenda-a e conte que quer comprar um cachorro. Pode dizer que vê novelas. Explique que o faz porque sua mãe é muito solitária e se distrai discutindo com você cada capítulo. Ela vai entender que você é um filho generoso e prestativo”.
Mediando uma luta fratricida entre suas duas consciências, Jurandir precisou voltar à sala para atender o telefone que tocou novamente.
Ele chegou a pensar que pudesse ser sua mãe, dona Glorialda, excitadíssima e disposta a falar do capítulo 189 da novela em que, finalmente, descobriram quem matou a mocinha, um crime ocorrido no primeiro capítulo. Enganou-se:
- Alô!
- Pó, Juca, você ainda não saiu de casa? To te esperando há quase uma hora. Você disse que chegava aqui em vinte minutos, cara. Pega um táxi, vai! É mais rápido. Não deixa de vir.
- Oh, Ana, eu estava falando com minha mãe no telefone. A velha me liga todo dia. É muito solitária e me prendeu numa conversa sobre reumatismo. Ela vive se queixando, mas na verdade tem uma saúde de ferro. É a viuvez que provoca essas coisas. É a solidão, minha amiga. Fiquei sem jeito de desligar. Ela adora falar de novelas também.
- Compreendo, mãe é mãe. Mas você vem?
- Claro que sim, mulher. To doido para te dar um abraço, saber das novidades. Relembrar as festas no sítio do Renato. Lembra?
- Obvio que me lembro do Renato. A primeira vez que ficamos juntos você fumou unzinho e me beijou. Depois caiu no sofá e dormiu até de manhã. Lembra?
- Claro. Mas vamos conversar sobre isso quando eu estiver aí?
- Vamos. Então vem, caralho!
- Beijo!
- Beijo!
Jurandir desligou e caiu em si mais uma vez. A perversa consciência, o lado mau, não lhe deu trégua, principalmente porque ele não soube conduzir a conversa com Ana pelo caminho da sinceridade. Para se defender, mostrou o que não era. A trilha da mentira é perigosa e incerta:
“Aí, Aí, Ta falando cheio de gíria, parece um surfista. Aí, cara, aí mermão, aí brother. Você, Jurandir, de Zona Sul só tem o ônibus que pega todo dia pra chegar em casa. Devia morar num caixote na Praça Mauá, debaixo do viaduto. Ainda mais com essa careca idiota, com essa barriga de cerveja, essa cultura de rádio relógio, só rindo de você, seu infeliz. Ridículo. Nem carro você tem, seu pobre de espírito, pobretão de grana. Enfia a cabeça debaixo do travesseiro e diz: eu morri, mamãe vem me enterrar. Juquinha! Jurandir!. Carequinha, brochinha. Vai lá. Vai ver a cineasta. Vai contar pra ela que você é escriturário e que bate ponto todos os dias na Mendonça Contabilidades, ali no Largo do Machado. Vai contar pra ela que se diverte no Forró Forrado, que sua extravagância é ver show do Bruno e Marrone no Canecão. Conta tudo pra ela! Conta que você está parado no tempo. Explica porque compra roupas da Rua da Alfândega. Diz que não quis mais estudar, que teve medo de aceitar outras propostas de trabalho e que ganha o mesmo salário, sem reclamar, há pelo menos cinco anos. Conta que o seu sonho é comprar uma casinha na praia, comprar um carro e levar sua mãe para passear no litoral capixaba. Mas frisa que é sonho que nunca vai se realizar. Que a velha vai morrer e você vai continuar batendo ponto naquele escritório, sem ter coragem de chamar o Mendonça e pedir um aumento. Porque na hora que pedir, ele dizer: não tem aumento, senhor Jurandir. Aí, você não terá colhão de diz pra ele: então, seu Mendonça, enfia esse escritório no...Diz não, bundão! Diz não que ele te manda embora e depois você voltará pra casa da mamãe, com o rabinho entre as pernas e desempregado. Se enfia debaixo das cobertas e esquece esse negócio de ir ao Leblon encontrar com ex-namorada que não tem o que fazer na Europa e agora veio para o Brasil mexer com quem está quieto na sua mediocridade e que só quer continuar lá. Você já percebeu que quando toca no assunto novela lá no trabalho, Sandreza e Sinara torcem o nariz? Não percebeu, panaca, como elas falam de cinema, de shows, de livros e de viajar. E você? Lembra quando a Sandreza até te deu uma olhada, te chamou para ir à praia e você arranjou a desculpa de que tinha um batizado. Lembra que ela riu de você? Não se toca? Mané. Nada de Jobi, nada de Ana Cristina, nada de cinema francês. Não queira “saber do Louvre, por que você vai se deparar com a sua falta de expressão”.
Jurandir entrou em pânico. Mais uma vez, seu lado mau da consciência o derrotou. Por causa de mais uma severa reflexão, ele descobriu que tinha medo de mulheres. Medo do que poderia ocorrer como desdobramento de um encontro com uma fêmea. Perversa consciência!
Mas o tempo não para e o telefone toca Jurandir ainda estava sentado no sofá, ao lado do aparelho, refletindo a sua última conversa com Ana. Não poderia ser ela, o tempo nem passou. Mas era. O tempo havia passado:
- Alô!
- Pó, Juca. Filho da puta. Não acredito. Sacanagem, caralho. To te esperando, porra, seu viado. Você vem ou não vem? Ah, não. Isso é muita falta de consideração. Saí da Europa e o primeiro amigo que eu procuro, depois de quase vinte anos, me sacaneia desse jeito. Vem, Juca, to cheia de carinho pra você. Tenha mais consideração. Quando você for à França, vou te receber muito melhor do que você está me recebendo, seu escroto. Vem logo, vai!
- Tava saindo de casa, Ana.
- Beijo!
- Beijo!
Consciência, sacana consciência. Por que tu és tão rigorosa sabendo que a matéria morre e te leva junto para o buraco. Ainda bem que há a boa consciência, aquela que acredita na eternidade, e dá bons conselhos para o pobre Jurandir. Um esteio:
“Vá, Juca. Fique amigo dela, conversem muito sobre um tudo. Se rolar uma saída, seja humilde. Diga com todas as letras que tem andado tão sozinho ultimamente, fale assim, como na música, e brinque com a sua situação. Mas seja humilde, seja verdadeiro. Gente como ela, que vive num mundo complexo, cheio de gente vaidosa, esnobe, depressivas, às vezes se surpreende quando encontra pessoas como você, humilde e sincera. Se estiver com medo de fazer sexo com ela, diga com todas as letras e peça que tenha paciência. Mas deixe fluir, haja com naturalidade. Se não quiser mesmo fazer, diga também. Se te fizer bem, deixe claro que você é heterossexual, mas que anda num momento difícil, sem interesse pelo sexo oposto. Se ela for uma mulher inteligente e sensível como está demonstrando, vai te dar apoio e tentará te passar segurança, conforto e dizer que outras oportunidades virão. Se for esnobe, não te merecerá. Vá, mas deixe de ficar vivendo este drama, enfrente seus fantasmas. É melhor errar tentando do que se esforçar para antecipar um fracasso".
O telefone. Ele nunca para:
- Alô!
- Juca, Juquinha, seu filho da putinha. Me diga de uma vez por todas: Você vem ou não? Se não vier, tudo bem, vou para o hotel e pronto...
- Me desculpe, Ana. Mas é que me ligaram duas amigas, a Sandreza e a Sinara. Elas estavam me falando de um filme novo e eu me distraí na conversa.
- Sacanagem, cara. Distraiu, é? Não quer me ver, né?
- Quero sim. Já to saindo de casa. Em poucos minutos chego aí. Vou de moto...
- Moto? Você tem moto? Que legal, cara. Na Europa eu viajei cinquenta mil quilômetros numa Harley Davidson 1500. Maravilha! Liberdade, liberdade, cara. Mas só vou te contar da viagem quando você estiver aqui. Filmei tudo, tem cada imagem maravilhosa. To preparando um documentário. Amanhã vou dar uma entrevista ao GLOBO para contar tudo sobre o filme. Venha logo, Juca!
- Vou sim, Aninha. Em 15 minutos chego aí.
- Tá bom. To esperando. Juca?
- O que foi, Ana?
- Tem um base?
- Um casaco? Blazer? Mas tá um calor danado.
- Pô, cara. Ta me gozando? Você sabe do que estou falando.
- Lembra da festa no sítio do Renato? “Baseado no que você pode fazer”. Pepeu Gomes...
- O primeiro beijo...lembrei, garota. Tenho sim. Vou levar só um, heim. Nada de ficar doidona. Amanhã é quarta-feira, dia de batalha.
- Malvado. Venha logo.
- Beijo.
- Beijo.
A beira de um ataque de nervos, Jurandir suou frio e fedeu o cheiro da mentira. Afinal, passara dos limites. Quanta falsidade e dissimulação. Moto, drogas, alienação. A consciência, aquela que o maltrata diariamente e sem piedade, o apanhou de jeito mais uma vez:
“Ah, Vai, Juca. Vai levar um baseado pra ela. Vai de moto. Ela está te esperando. Ela quer fazer sexo selvagem. Quer ficar doidona, tirar a roupa na rua, subir na mesa do bar e gritar que no Brasil todo mundo é careta. Com a sua conversa fiada, ela terá uma sincope se juntar maconha e chatice. Não vai, cara. Fica em casa. Esquece. Essa mulher não é para você. Ta beirando os 40 anos. Pra tá nessa ansiedade de te ver, deve ter virado um bucho. Só cinema, drogas e viagens de moto pela Europa. Sedentária. Vai ver virou uma baleia que não arrumou nada na Europa e agora voltou para tentar fisgar um brasileiro otário para exibir entre aquelas francesas gordas que ficam comendo e bebendo debaixo daquela torre. Sai de mim, urubu. Comigo, não. Hoje tem futebol depois da novela. Joia. De novo, esse joia? Que coisa mais cafona. Liga a TV e arranca o fio do telefone da tomada. Deixa assim pelo menos uns trinta anos até que ela desista de falar contigo das próximas vezes que voltar ao Brasil para arranjar marido. Gorda! Feia, deve estar branca como cera. Naquele lugar não tem sol. Nem marca de biquíni vai ter. A bunda deve estar toda branca e cheia de espinhas. Eca!”
O telefone, depois que foi inventado, não parou mais de chamar. Na alegria e na tristeza. Por ele, recebemos ótimas e trágicas notícias. São mais de cem anos tocando sem parar em bilhões de lares, em todas as línguas, mundo a fora. Chora-se e se ri muito ao telefone. Fecha-se negócios e desfaz-se casamentos. Há despedidas e retornos. Notícia de morte e nascimento.
Na casa de Jurandir, já se sabe, tinha um telefone. Portanto, mais cedo ou mais tarde, ele tocava. Talvez fosse um raro caso de tocar todos os dias, sempre às dez horas, para que mãe e filho conversassem sobre novela.
Mas o telefone quando toca na casa de Jurandir, toca pra valer e deve ser atendido logo:
- Alô.
Ana Cristina tinha agora um tom de ansiedade:
- Juca, to indo às pressas encontrar uma amiga que vinha me ver também, mas que sofreu um acidente na Ataulfo de Paiva. Parece que foi grave. Levaram pro Souza Aguiar. Depois te ligo. Vamos deixar nosso chope para amanhã? Pode ser? Não vou te atrapalhar?
- Pode ser, Ana. Já estava saindo, mas vá lá. Veja a sua amiga. Se precisar de alguma coisa me liga.
- Obrigada, Juca. Você é um amigão. Que saudade de você, cara. Quero te pegar de jeito, hem, seu canalha. Amanhã, sem desculpa, seu sacana. To com uns convites para um resort em Búzios, tudo pago. Cinco dias. Vai comigo? Vamos nos divertir à beça. Na viagem vou querer saber tudo a seu respeito, o que lê, o que come, o que estudou, o que faz da vida.
- Vamos combinar então, Ana.
- Vai uma galera do cinema francês pra Búzios com a gente. Vou te apresentar todo mundo. Só figura, cara.
- Joia, Ana. Vou sim.
- Joia, até amanhã, Juquinha.
- Liga mesmo, Aninha. Gata, linda.
- Juízo, gostosão!
- Se cuida pra mim, garota.
- Beijo.
- Beijo.
FIM
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